terça-feira, 19 de novembro de 2013

Bicicleta



Uma mão firme, jovem, prende com força o rumo do final da tarde. Uns pés vestidos de cabedal, atado para não deixar que o vento o leve, dançam suspensos sobre o chão que se desdobra. Um tronco, curvado e já meio dorido, vê  os seus contornos abraçados pelo tecido da camisa que esvoaça no fundo das costas. Uma boca, uns olhos, um nariz espelham o coração. Um coração. Do qual não importa saber nada agora. Do qual se solta o orvalho que o frio da rotina costuma trazer.

No cenário que corre à minha volta vou balançando, meio atabalhoado, o meu peso para que nada disto que me envolve pare num trambolhão. Para não cair, para que estes minutos não travem de repente, não derrapem na minha inexperiência.

Neste processo quase mecânico, onde passos são trocados por tiras pretas que deslizam no chão, consigo encontrar um sorriso diferente, uma gargalhada nova, um ar fora do vulgar. Consigo sentir a magia daquilo que me rodeia. O encanto de uma rua mal alcatroada, o tilintar tosco da correia mal oleada.

Rasgando a avenida que desagua do rio, por pouco, não ganho penas e levanto voo. Quem me dera poder fechar os olhos e deixar o vento e a cidade abraçar o calor que enche agora o meu coração. O calor dos dias onde não tenho nada que me pese na alma. O calor do sol que me protege nos dias em que os ponteiros giram por alguém.

Ultrapasso o tédio, não paro por nenhum sinal que me tente travar. Desfaço curvas com a convicção de quem se guia pelo que o enche. Subo passeios, piso lombas e escondo-me dos carris.

Pelo caminho vejo as coisas mais bonitas que a cidade guarda, invejosa: o mar que se desenrola em céu; a cor dos azulejos que guardam o retrato de tudo o que seja santinho, paisagem ou amor-perfeito; a luz que invade cada frincha que risca o betão, a pedra, o vidro: ilumina o interior dos meus olhos e encandeia o tempo parado que enche o meu corpo.

Com o branco do mármore a competir com o branco que me cobre a pele vou abrandando: Já cheguei à praça onde o tem de ser me espera. Ainda em movimento, solto os pés que se libertam do seu ofício e aproveito os últimos metros de liberdade. Vejo um poste, deixo-me escorrer até o ter preso no meu punho dorido. Pés no chão. Num alçar de perna deixo para trás a bicicleta que pelo peito me puxa para fora.

Do bolso tiro uma chave pequenina. Teço um novelo de metal entre aquela máquina de tempos bons e o ferro frio da realidade que regressa. Tranco com firmeza o cadeado que levava na mochila.

Pé ante pé vou deixando infiltrar-se na paisagem a minha bicicleta preta que me trouxe até aqui. Que consegue arrancar a tristeza da cidade numa só passagem veloz.

Paro de repente: uma dúvida. Volto para trás, em passo acelerado. Com ela de novo à minha frente puxo pelo cadeado. Está mesmo fechado.

Retomo o meu caminho de peito leve: és demasiado importante para que alguém te possa tirar de mim.

Diogo Lopes


quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Um dia que foi noite.



Pó no alto e vozes alegres puxam a noite do seu esconderijo. Depois de quilómetros rodados e de músicas mal cantadas entramos na casa de campo que nos irá receber durante esta noite. Terras soltas e capim fazem o nosso coração saltitar ainda mais. A brisa fresca afasta desejos de mar mas chama por o copo que se vai querendo generoso. Tudo nos faz querer que coisas boas estão para vir: amigos, música e liberdade jorram por entre a seiva dos eucaliptos que nos abrigam, exalam da relva onde nos sentamos para viver. Despreocupados e com a vontade de viver. Todos sorrimos, mas eu sorrio mais ainda.

Para juntar às horas felizes onde troco risos e momentos bons entre os amigos, sei que lá, aí, aqui, estás tu. No meio das planícies arenosas que nascem entre luzes coloridas e roulottes. Estas tu. Quase não te conheço, quase parece inventado a origem das nossas palavras, mas começo a ver coisas boas à minha frente. Coisas boas de olhos claros e cabelo curto. Coisas boas que não sei de cor mas que reconheço como o próprio toque das minhas mãos.

Vejo-te ao fundo, leve mas com vontade de parecer pesada. Simples, querida. Vejo-te ao fundo e chamo por ti. Finalmente. Estas aqui e dou-te um abraço. Cheiras bem. A tua pele e macia. Trocamos palavras, olhares, e sinto-me bem, muito bem. Sinto-me como me fazes sentir. Bem. As músicas vão saindo disparadas, as luzes trespassam-me os olhos embaciados, salto, corro, danço, celebro cada fôlego extasiado que sai de mim. Não era o mesmo sem ti.

Dei-te a mão, dei-te o braço, dei-te o meu sorriso e o brilho dos meus olhos. Na noite que nos emoldurava quis-te dar o que pudesse. Beijos ternos, assanhados e carinhosos foram soltos por nós numa indiferença estoica para com o mundo. Quis que te perdesses nos meus braços com cada toque, com cada caricia que quis que sentisses. Ingénuo e contente fui aproveitando tudo o que o escuro podia dar aos maiores corações que podiam começar a abrir.

Começava a sentir no fundo da nuca o frio do fim da noite. Faltava um concerto e eu que não estava contigo. Tinha te na cabeça mas o meu corpo foi da música, foi dos companheiros com quem tanto já passei. Loucuras e brincadeiras iam explodindo entre nós mas nada que se compare com o que foi sentir o teu toque, no meio da multidão, a chamar por mim. Voltaste: como te queria naquela altura. Puxei-te para mim, entrelacei os meus braços em volta do teu corpo e deixei a minha cabeça assentar no teu ombro. Sustentava toda a minha realidade naquele momento, o teu ombro. Beijei-te o pescoço, cantei no teu ouvido, dançamos e soube, mesmo quando as luzes nos cegavam de êxtase, que era ali que tinha de estar. Era contigo que queria partilhar aquele momento. Só contigo. Gosto de ti.

A multidão dispersou, as luzes acalmaram, a música parou e continuei contigo ao pé de mim. Não me queria ir embora, não queria uma despedida. Mas não deu. Teve de ser. Confrontado com a fatalidade de te ter de deixar, resignei-me. Estavas cansada, bocejavas e o teu corpo delicado já pedia por descanso. Eu esqueci-me das dores nas costas, da enxaqueca e das pernas trôpegas porque não queria ir embora. Mas teve de ser.

Caminhamos a sorrir, de mão-dada e com histórias felizes a saírem das nossas bocas. Chegava o portão que me fecharia a porta da tua mão. Que me ia deixar mais pobre nessa noite. Tu com o meu casaco, eu com o calor de quem gosta de alguém. Tu abraçada a mim e eu a querer ter mais braços só para te apertar ainda mais contra o meu peito. Beijei-te como se fosse deixar de te ver para sempre. Quis selar a minha alma em ti com os meus lábios. Quis sentir a tua respiração a invadir o meu corpo e a contagiar-me ainda mais. Senti as tuas mãos na minha cintura a incendiar a minha pele. A gravar a quente a vontade que tenho de ti. Com calma as tuas mãos deslizaram até ao meu peito e foi o adeus. Beijinhos, fica bem. E assim desapareceste no meio da multidão cansada com o meu casaco e um pouco de mim.

Andamos e andamos e andamos no escuro onde as luzes dos carros davam nova vida ao pó que morava naquele sítio. Ia bem até. De vez em quando tinha de olhar para o acampamento que te guardava na esperança tola de te poder ver. Mas ia bem. A ressaca de ti ainda estava distante e embriagado sorria com pedaços teus ainda nos meus lábios, nas minhas mãos, no meu coração. O carro benzido pela neblina que ofuscava aquele descampado foi a nossa casa por umas horas. Como companheiros de aventuras já não nos era estranho passar uma noite desconfortável de corpo mas aquecida pela amizade. Fechei os olhos e o dia acabou mais uma vez.

Frio e boca seca deram-me os bons dias. Estava luz e nevoeiro. Não estavas tu. A tua ausência começava a moer a base da minha nuca como uma enxaqueca que desperta. Mas a vontade de levar seguros a casa os meus amigos, por uns segundos, consegui entreter-me enquanto o nascer do dia se desdobrava no para-brisas sujo. A chegada a casa foi tranquila. Comemos. Bebemos. Descansamos. Todos fecharam os olhos, eu fiquei para último porque algo me puxava os cabelos. Algo dizia que tinha de ir para o teu lado de novo. Esforcei-me para tirar isso das minhas pálpebras que se fecharam. De respiração leve e sono profundo pensei que estava a salvo. Engano. Nem em mim estava seguro da vontade de te voltar a ver. Entraste nos meus sonhos, intrépida e sem pedir autorização. Disseste que me querias também como eu te queria a ti. Devo ter sorrido de olhos fechados. De certeza.

Mais uma vez acordei, já com o sol bem alto. Os excessos do dia anterior partiam-me a força e a energia de me levantar, mas lá fui. Tudo pronto, tudo arranjado e sem nada para fazer. Inventei uma desculpa para sair e distrair-me da noite que tinha passado e me deixado embeiçado por ti. Mas nada funcionou. Por muitos prédios e muitas caras que visse era a tua que mais desejava ter entre as minhas mãos, pronta para um beijo doce como aqueles que já trocamos.

E estou aqui agora: sozinho, com as palavras e a música como minha companhia. Com a ressaca da tua ausência a esmagar a minha cabeça e o meu coração. Procuro consolo nas palavras que nascem dos meus dedos. Desejo que o tempo voe para estares de volta. Invento desculpas para a mensagem que ficou por responder. Desespero em pleno exagero com o medo de não estares no mesmo sitio que eu. Não me teres tão bem quanto te tenho a ti.

Não sei do futuro. Não confio no que a minha cabeça suja me diz. Sei que gosto de ti. Começa a nascer alguma coisa que o sono e o cansaço tornam hipérbole. Mas sei que não quero ser um caso, um que aconteceu e depois foi. Vejo coisas boas em ti que não vejo em mais ninguém. Acredito que histórias felizes podem nascer. Espero por ti então. No quarto escuro onde parti tudo o que dá luz espero por ti. Quero voltar a ver-te. Quero tentar contigo. Quero que a saudade vá com o vento e me traga de volta os tempos que já tivemos juntos. É pouco mas agora preciso de qualquer coisa. Qualquer coisa de ti. Qualquer coisa teu. Qualquer coisa que me traga a vontade de dormir porque eu não sei onde ela para.

Diogo Lopes  



quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Verde.




Montes e planícies correm ao meu lado  para tentarem fugir do dia que acaba. Não querem o escuro húmido da noite que vem. Não querem que dias passem. Eles já são tão pequenos... 

Mas o céu azul e laranja e amarelo e maravilhoso não lhes liga. Descobriu uma poça onde se tem deliciado a ver o reflexo das suas nuvens. Prolongam-se até serem só ar. A ver o reflexo do eterno que se esconde de todos menos a esta hora... Esta hora em que a noite acorda, rabugenta, e preenche o lugar que o Sol e os seus filhotes ocuparam de manha. É uma hora especial. É uma hora que nunca devia passar.

Diogo Lopes

Aqui.


Por entre fumaças de cigarros vizinhos aprecio o contraste do mármore branco contra o azul do mar e do horizonte. Poças de verde vão tapando os furos deste cenário que recebo, calmamente, como pano de fundo. Para lá da porta do palácio antigo, no meio dos bonitos tons das casas coloridas, emoldurado no silêncio pacífico deste sitio, encontrei um cantinho que tornei meu. Um cantinho de sossego e cafés sem açúcar.

Sentado num degrau desta varanda natural, ao ar livre, vejo fundos de chávenas de papel comporem a textura do conforto que se sente. Aqui. Com as costas na sombra deste bloco de granito deixo o som das folhas embalar a paz destes dias solarengos.

Não penso em nada, não falo, não me mexo. Estou simplesmente aqui. Estou simplesmente aqui a deixar que a brisa leve para lá dos barcos as promessas e os suspiros vãos. Deixo o ferro ferrugento e a calçada cansada abraçar-me e dizer que aqui está tudo bem. Aqui não há confusões nem expectativas. Há mar, há horizonte, há pedra e há verde. Vento também, já tinha dito. Não há maldade. Não há nervosismos doentes de desejos sem relógio nem horário. Não há multidões que trazem solidão.

Aqui a vida esconde as coisas boas e segue em frente sem saber deste intruso que, às escondidas, lhe entrou no coração.

Aqui estar sozinho sabe bem.

Diogo Lopes

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Alice.


Pontilhados de amor, melancolia, paixão ou esperança fluem no ar. Pontas dos dedos libertam gotas de chuva que respingam no chão com uma musicalidade gloriosa. Subimos, descemos. Explodimos e encolhemos. Soltam-se, de quando em quando, lágrimas furtivas que são espelho de uma alma magoada. E os olhos choram. As mãos choram. Todo o corpo chora numa efervescência de sentimentos escondidos. Cada nota, um beliscão na alma. Pura magia musical. A emoção reina. E sinto-me minúsculo. Estantes e paredes levantam voo à minha volta, fechando-me nos meus terrores e nos meus sonos. Mas há luz. Há propósito em tudo isto. Isto purifica-me. As mesmas gotas que caiem levam consigo o medo, a insegurança. Limpam uma alma suja de pensamentos maus e obsessivos. Solta os grilhões de uma mente gasta e torna-a mais forte.

Os baixos vibram, ecoam no meu crânio. Cada dedilhar faz saltar imagens de ti. Do que quero de nós. E o piano vem de novo. Agarro-me firme. Tento não me afogar na onda escura que vem do Steinway. Nenhum náufrago alguma vez passou por isto. Nenhuma força foi alguma vez tão grande quanto esta que me quer atirar de uma ravina. Mas mantenho-me firme. Os músculos dos meus braços começam a rasgar, mas mantenho-me firme. Estóico. Esta na altura de pegar no ferro em brasa sem gemer. E vou conseguindo. As ondas começam a acalmar, já começo a sentir peixes pelas minhas fracas pernas. A bonança esta a chegar. Sobrevivo a este tufão de emoções mais forte, mais seguro. Sei quem sou, sei quem quero.

Abro os olhos, a luz quente que trespassa o estore estragado seca-me o rosto e dá o mote para o futuro que vou tornar glorioso. O peito acalma-se. Respiro de novo. A faixa acaba, Alice descansa e Sassetti também. Levanto-me e sigo o meu caminho. Obrigado Bernardo.

Diogo Lopes

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Um dia que passou.


Acordo abraçado à melancolia que visto como pele. Os meus olhos vão abrindo lentamente, por entre intermitências de preguiça e coragem. Sinto os lençóis de flanela a aconchegar o ninho onde guardo quem sou. O seu azul claro engana quem veja de fora, fazendo crer que de alegria se constrói este porto de descanso e abrigo. Estico os braços e as pernas que serpenteiam por entre o quente das ideias e pensamentos que deixo escorrer todas as noites, na almofada que sustem a minha cabeça nesse mundo privado. Não sei o que aconchega mais: se o calor da roupa da cama, o seu peso bom, se o mundo que construo em mim desde o primeiro dia em que acolhi a solidão que carrego como cicatrizes de um castigo sem fim. Pele, carne rasgada que sarei por mim próprio. Portas de entrada para a casa dentro de mim. Neste colchão, neste quarto iluminado ao de leve pela penumbra do dia novo, vivo em mim, passeio em mim, e tudo parece mais fácil. Não preciso de sentir a minha diferença, não preciso de me esforçar por a tentar atenuar. Neste colchão posso pousar o fardo pesado que é existir neste mundo e sentir-me em paz. Em união comigo mesmo. Tenho tanta pena. Tenho tanta, tanta pena que seja assim. Pena de ver o caminho que o mundo leva, pena de ver o percurso sinuoso que as pessoas que o carregam percorrem. Paço a paço fogem da sua humanidade. Da simplicidade das coisas puras, do calor que surge na combustão dos sentimentos. Daquilo que nasce logo que o nosso destino se começa a escrever. A vida. Deitada fora por tantos, todos os dias.

Prefiro a minha cama: não escorrem olhares vazios para cima dela, ouve-se o barulho dos pensamentos que serpenteiam nas dobras dos lençóis, aconchega-se o sonhar com carinho e valor. É este o berço onde renasço todos os dias. É este o tónico que me dá força para ser fiel às tabuas e pregos que sustem a minha pele. É aqui que sou, só isso.

É preciso força para manter esperança no bom que o mundo guarda. É preciso não deixar de acreditar que por entre o vento gelado da descrença e os corpos flutuantes que por ele navegam existe mais qualquer coisa, mais do que olhares que brilham só pela genica efémera dos movimentos que a noite oferece. É real a luz que nos toca quando franzimos os olhos e espreitarmos para lá do nevoeiro. O sonho que alguns deixam crescer no peito não está preso nas fantasias ingénuas de quem deseja por mais. Existe amor, ele é real. Não é aquele que surge nas cores de ecrãs que o distorcem: é o puro. Aquele que te vale por todas as vidas que por esta terra já caminharam e, ao mesmo tempo, te faz desejar que nunca a luz do sol tivesse tocado na tua pele. Da montanha mais alta á fossa mais imunda, da saúde à doença, esse amor existe e é precisamente por ser do tamanho do tempo que torna a vida completa. Real.

Hoje duvidei por instantes naquilo que já sei de cor, nem o melhor pregador resiste á tristeza fulminante que levanta dúvidas como se fossem grãos de areia. Quando o coração acelerado entra em delírio não existe razão que o impeça de fugir loco para o mar alto do desespero dos que são como eu… Agora estou mais calmo, a música e as palavras têm o dom de domar o pulso disparado de um corpo desvairado.  Mas olho para as últimas horas que fugiram deste dia e posso dizer que os tremores e os olhos embaciados não me fazem arrepender de ser assim. Provam que vivo na corrente frenética do correr da vida e ela vive em mim também.

Na cama ainda faço do quente minha casa, ainda estou a ganhar coragem para mais uma batalha contra a corrente padrão, mas olho para a janela…
Está um dia bonito lá fora: sol alegre, escondido em pós de nuvem que cortam o calor. Céu bonito. Vejo-o da minha janela e lembro-me que hoje é mais um dia e a fome aperta.

Diogo Lopes

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Nas dunas onde falo contigo.



As ondas que se vão desdobrando na areia mole do beira-mar trazem-me o teu nome. Na penumbra que se espreguiça e começa a levantar-se, lá, no horizonte quente onde mora, sinto o cheiro do teu cabelo. O cheiro a mar calmo, a areia quente.

Nestes dias que passam por mim sem que eu lhes toque, vou-me apercebendo que estás em todo o lado. Em todas as dobradiças e encaixes dos meus dias. Livros que leio contam-me a tua história. Parágrafos e capítulos inteiros encharcados pela tua luz, pelo teu brilho. 

Conheço a tua presença. Noto-a nas noites mais escuras onde o calor adensa o pesar da lua. Noto-a no ponto mais longe desta película azul brilhante que refresca a praia onde estou agora. Conheço a tua presença mas não sei dos teus contornos. Trago sempre comigo de mão dada a frustração de nunca te ter tocado, de nunca te ter deixado escapar de dentro de mim para que pudesse tocar no teu rosto.

O sol brilha: Queima a minha pele. O vento vai e vêm: sinto-o no ondular das dunas onde me sento. Tu tocas no meu ombro e mostras-me o pôr-do-sol: sonhos mentirosos que maravilham mas não crescem.

Já passaram os tempos onde ver-te quando fechava os olhos chegava. Já lá vão as horas onde imaginar o meu braço a proteger-te me fazia sorrir. Quero ter-te na distância de um sopro. Não quero o teu carinho preso na miragem de te ter. Não te quero chuva que cai mas não me molha. Quero-te beijar. Escavar a espuma que turva os meus dias e puxar-te para o meu abraço. Deixar que o vento te leve da montanha onde o destino guarda o que tem para me dar e te faça voar para o futuro colorido, vivo, que faria do teu lado.

Sei que só me resta esperar pela andorinha que do sul virá contigo no coração. Esperar. Esperar, esperar, esperar. É o que me resta. Ficarei neste suspenso até te ver no meu colo, onde as ondas te irão molhar quando o nosso calor ditar a sua sede. Até lá estou aqui: com o fim-do-dia a dar a sua bênção a esta praia onde mora o meu desejo por ti.

Diogo Lopes

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Onde eu estou.


Descontraído, vou descendo o caminho por onde desfilam os meus pés contentes. Um e outro. Um e outro. Sempre seguidos, sempre pautados pelo andar solto das pernas que se estendem deles.

O gingar que vai dançando com a gravilha ainda quente dilui-se no ar jovem que as vilas pequenas ganham nos meses em que o sol sobe mais alto. Nos meses do regresso. Nos meses da paixão. Nos meses do cheiro a fruta e peixe grelhado.

Não vou para nenhum lado, não tenho nenhum afazer: simplesmente caminho. Dou umas voltas sem sair do sítio. Onde eu estou agora não se vê néons cor-de-rosa, não se ouvem as gaivotas irrequietas. Nada disso.

Onde eu estou vê-se pouca coisa até. Sente-se mais do que se vê. Vive-se mais. Onde eu estou, o rebentar das ondas desdobra-se no meu peito. Onde eu estou ouve-se as histórias que a areia conta ao ouvido. No sítio onde estou o calor da luz estilhaça a minha pele seca e os sorrisos da vida brilham mais forte. Estou bem.

Deixo o mapa deste sítio solto no ar para que te encontre em qualquer lado. Não o percas. Não o manches. Segue-o só. Onde eu estou há espaço para mais um. 

Diogo Lopes


domingo, 30 de junho de 2013

Um dia de verão.



Na sombra de um dia bem passado deito-me na relva verde dos sonhos de dias cinzentos. Cai sobre o mundo, sobre mim, uma fina película, de tons laranjas, amarelos e azuis-escuros, que começa a fechar o dia de que passou. Um dia bom. Com pessoas boas.

É nesta pausa, quente de alma e de pele, que eu fecho os olhos e celebro dentro de mim a alegria que é viver neste mundo, com quem me vê e gosta. Com o agasalho felpudo da amizade a embalar o meu coração. Na certeza de que não caminho sozinho, não caminho vazio. Tenho-vos a vós e mais ainda me têm vocês.

Não sabemos ainda que caminho este lusco-fusco esconde por entre o seu brilho. Por entre as pinceladas de quem o pintou. Que nos terá a lua reservado? Por agora espera-nos uma mesa cheia, feliz, onde nos sentamos e deixamos as teias da vida entrelaçarem-se num bonito pano que afasta a solidão e a tristeza. 

Risos, caras felizes e comida quente como o ar travado pela janela que nos enquadra. Tudo isto faz de mim uma pessoa. Como uma pessoa deve ser: preenchida, com rumo. Rumo cheiroso, refrescante no verão e apertado no Inverno. Até o amor põe a cabeça de fora e ameaça fazer uma visita.

Mais logo a música louca irá empurrar-nos até às ruas que salpicamos com sorrisos e abraços. Pontas cor-de-laranja iluminam o caminho que percorremos de copo e entusiasmo na mão: a vida é isto. É sentir alegremente as cores de uma memória boa a surgirem por entre o branco da rotina. É excitante ouvir as suas pinceladas vigorosas, os seus contornos a brotarem da ardósia preta que agora ganha cor. Somos felizes. Sou feliz. Aqui e com vocês.  


Diogo Lopes

segunda-feira, 24 de junho de 2013

O Grande da Esperança.



Por entre o verde que pinta aquele jardim, o Grande descansa num banco de madeira velhinha.
Sente se cansado, sem fôlego depois de mais um ingénuo dia que ameaça aos poucos acabar. 
De ombros nos joelhos e mãos no queixo deixa tombar para a frente a altura que lhe foi deixada pelo destino. Ele é um majestoso desperdício de comprimento e largura: espadaúdo e de costas largas faz lembrar os gigantes de outros tempos... De outras histórias. Aos olhos dos outros é de pedra. Seguro e firme como um homem daquele porte deve ser. Uma rocha coberta de pele rija, seca, desgastada pelo pesar da vida, mas sem um único rasgão. Nada conseguiria rachar aquela pessoa, aquele coração.

A Esperança gosta de pássaros. Desde pequenina. Costumava ir dar migalhas de pão seco de jantares e almoços passados com o avô, aos passarinhos que iam regressando aos cachos de viagens por céus de aventura.
Eles fascinavam-na, desejava todas as noites poder ver com os olhos das rolas, sentir o vento deslizante percorrer o seu corpo em quanto riscava céus como um pardal. Queria essa liberdade, essa sensação de união com o mundo natural que lhe dava vida todos os dias. Queria conhecer, explorar terras e mares longe do terreno da quinta dos seus avós que já lhe enchiam os dias de tédio e cinzento. Queria provar as sementes do oriente, o pão da América do Sul... Queria o mundo à distância de um bater de asas vigoroso, sem medo. 
A Esperança gosta de pássaros mas não o diz a ninguém. O trilho que vai percorrendo, entre verdes e cores de laranja, é o mundo dela. O autocarro que a trouxe até ali é o mundo dela. Tudo é o mundo dela porque ela é o mundo dela. Vive fechada nas quatro paredes da sua cabeça, do seu coração. Tem jardins de ouro dentro de si, mil vezes mais bonitos que aquele que atravessa agora, mas não o mostra a ninguém, não o mostra nem ao Grande. O seu Grande. Esta a ir ter com ele agora.

 "Às seis no jardim, combinado?"

 Deixando para quem vier trechos de árvores e relva, começa a ver o Grande. Ainda faltam uns bons metros para chegar ao banco dos seus planos, mas ele salta-lhe logo à vista, qualquer pessoa o descobriria em qualquer lado, bastava procurarem a torre molengona, que rasga mares de cabeças, que logo o encontravam. Um farol de humanidade. 
Beijinhos e "olás" são deitados fora e ficam os dois sentados, num quadro, digno de destaque museológico. Sente-se no ar a expectativa, o desejo de gritar, de vomitar de uma assentada todas as palavras que já disseram, pensaram ou imaginaram pensar. Porque não fala ela com ele? Porque não fala ele com ela? Por agora a resposta não surge mas, mesmo assim, ele arrisca e pergunta: 

"estas a ver a margem de lá do lago?" 

Ela acena com a cabeça que sim e vira-se para ele como uma criança que houve um velhote a falar de tempos que já não o são. 

"Gosto de me sentar aqui e imaginar que do lado de lá fica o teu coração. Que só tenho de atravessar este lago para poder ouvir a música que toca quando fechas os olhos." 
O Grande era de rocha, mas de vento também. Passava despercebido por todos como um naco de carne empilhada, como uma Esfinge antiga e pesada. Mas a verdade é que o recheio daquela vida era de veludo fino, requintado. Escrevia poemas na parte de dentro da sua carapaça, pintava quadros com as cores que levava sempre no seu coração. O tempo tinha o feito para resistir, mas a vida tinha-lhe dado alma. Uma alma que só a ela dava a mostrar. Só ela tinha direito de a ver. Ele era para ela, o verdadeiro ele.

"se ao menos fosse assim fosse assim tão fácil..." saiu por entre os lábios gretados do Grande.

Ela estava perplexa... Não sabia o que dizer, como reagir. Sempre viu nele uma diferença quente, aconchegante, mas nunca a tinha procurado. Nunca tinha dado a mão para que ele a pudesse puxar um bocadinho mais para dentro da vida que nele existia. Passaram-se dias, meses, desde que se tinham conhecido, naquele mesmo jardim, numa manhã de Inverno, mas nunca tinha sido capaz de o procurar, ele não se conseguiria esconder também, é fácil não o perder de vista... Mas desta vez foi diferente. O que ouviu mexeu com ela, tocou-a. Talvez fosse a voz desanimada, sem abrigo do Grande naquele fim de tarde. Talvez fosse do lago que criava dois céus, um em cima e outro em baixo. Mas dessa vez foi diferente, dessa vez viu que o mundo que tinha criado por si, onde tinha feito casa, onde tinha raízes, afastava-a das planícies do norte de África, dos vales da América do Norte. As asas da sua vida estavam coladas aos sonhos que guardava para si e nunca tinha conseguido levantar voo, deslizar. Sentiu-se profundamente triste mas algo mexeu-se. No meio da enxurrada que corria dentro dela as mãos dele, ainda coladas ao seu portentoso queixo, chamaram o seu olhar. As mãos mais delicadas que tinha visto. Um monstro com mãos de anjo, mãos de pianista. Dedos finos, suaves, numa mão gasta mas com ternura por dar. Viu nas palmas das mãos do Grande um céu azul, bafejado de uma brisa ligeira, aromática e temperada. Por segundos pensou nos seus pássaros. Na liberdade que a fazia glorificá-los, na vida que queria ter mas com que apenas sonhava. Levantou-se. Começava-se a sentir o vento. De fronte dele, estendeu as suas mãos em busca das dele, que se encontraram. Fechou por um segundo os olhos e puxou-o do seu assento. Estavam em pé agora um a frente do outro. De olhos e mãos dadas.

"Anda, vamos passear." 

E em direcção ao sul começaram a andar, com o nome dela a envolve-los enquanto um bando de andorinhas lhes protegia, lá do alto, os campos que iriam atravessar.

Diogo Lopes

domingo, 23 de junho de 2013

Nacionalismo Bom.



Estamos numa sala escura, nublada. Paredes de estantes forram o nosso redor, esta divisão melancólica e acolhedora. Temos livros de lombadas gastas mas de qualidade superior; o melhor cabedal, cozido com a melhor linha e ilustrado com os melhores pigmentos. Temos fotografias de paisagens distantes, de cidades grandes, monocromáticas e vazias, de praias invernosas com céus carregados. Temos música: discos, cassetes, vinís afogados por vozes profundas que cantam solidão e amor, vozes que já cá não estão mas que continuamos a ouvir como se estivessem. Agora estão expectantes, maravilhadas, cheias: o palco não é delas hoje. 
Palmilhamos um soalho vincado por um sem fim de caminhares sonhadores, lunares, onde uma secretária portentosa, de mogno cristalino completa o cenário, juntamente com uma cadeira de cabedal de costas altas, protectoras. Senta-mo-nos, algo nos está a vergar. Algo que vem de todos os recantos deste nosso pequeno mundo: parece etéreo, omnipresente. Um som divino, cheio, embalador. Cordas que vibram em mãos de ouro, baquetas que transformam cabedal em bateres-de-coração fortes, pulsantes, e a voz… aquela voz. Árida de falsas verdades, grave, robusta e, acima de tudo, verdadeira. Embala os nossos corpos e mentes, cria esperanças e sara desilusões, desgostos. Uma voz que canta o que o coração não consegue dizer.
O ambiente cresce, os ritmos sobem de tom, os pelos da nuca também. Fechamos os olhos, nesta cadeira de cabedal frio, sentimos o cheiro da melancolia que se sente nos nossos ombros, nas nossas cabeças, e vemos o mundo à nossa volta girar. A tristeza vira alegria passando por saudade e desgosto. A depressão ganha asas e explode no ar com voos de confiança e orgulho. Basta deixarmos este som entrar, esta maravilhosa música, para vermos todas as cores do mundo e dos homens. Ouvimos Matt, Brice, Bryan, Aaron e Scott. Ouvimos letras que nos mostram mundos lindos. Ouvimos sons que, como agulhas, fazem tilintar todos os nervos do nosso corpo. Ouvimos amor, perda, solidão, intervenção, futuro e esperança. Ouvimos mundos que desejamos que sejam só nossos. Ouvimos The National.

Diogo Lopes

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Sempre esperei por ti.


Abre os olhos, devagar, deixando lentamente, a penumbra do nascer do sol dar vida às íris de cor verde que lhe dão o mundo. Que lhe dão ela. Esta a descansar ainda. Um anjo num nenúfar de linho branco, engelhado, impressão digital que revela o que se passou durante a noite. Na noite que durou mil noites. Mas ele não a olha logo, tem medo, medo de se aperceber de que tudo não passou de um sonho bom. Olha para o mogno pesado da cómoda que sustem um velho espelho, testemunha do verdadeiro eu que ele guarda dentro de si e que mais ninguém conhece. Um eu que chora, que dança e que faz caretas. O seu olhar vai subindo pelas linhas de madeira que fazem o móvel até que se detém no velho espelho. Não reconhece o que vê. Os traços que limam o seu rosto mantém-se, já os conhece de cor, mas a sua expressão hieroglífica não se assemelha a nada do que já viu. Olha para o seu reflexo, sarapintado por autocolantes que nascem pela superfície gelada do espelho, e vê o que esperou anos por ver. Vê o que o fez enlouquecer de desespero e esperança ao mesmo tempo. Vê Amor. Recíproco, genuíno e sem fim. Quase que nem consegue aperceber se disso... Disso que leva pintado na cara. Disso que nasceu do universo de sensações que está ali, deitado, ao seu lado, a respirar pequenas lufadas de eternidade no seu pescoço. Ela. Tudo. 

Com a subtileza de quem engana linhas de chuva, fugindo pelos seus intervalos, destapa-se, lança com mil cuidados de veludo as pernas quentes para fora da cama e senta-se. Olha o espelho de novo. Vê o sol que cada vez cresce mais na sua cara. Sorri. Levanta-se e fica de pé. Com a cama nas suas costas. A olhar-se ao espelho. O velho espelho. A sua cara feliz. Respira fundo e vira-se para ela, a ternurenta ela. A razão pela qual o mundo gira esta ali, à sua frente, com uma gasta camisola de lã que ele usa inverno após inverno, entrelaçada nos lençóis de amor que tem para lhe dar. Cobririam o mundo inteiro, o universo. E ele sorri de novo. Sorri muito. Quer partir os maxilares só para poder sorrir ainda mais. Meu Deus, ela está mesmo ali. Ele quase que nem consegue acreditar, mas é verdade. Ela está mesmo ali, deitada, de olhos carinhosamente fechados, com um sorriso de favos de mel. Ela está ali.

Com passos de calma e cuidado, ele atravessa o mar de madeira que forra o chão até chegar ao porto seguro que observa com amor desde que acordou. É perfeita. Tudo nela o é. Desde os seus pés de desenho cuidado, que espreitam, sorrateiramente, pela ponta da manta de lã que a protege, até ao seu cabelo castanho, curto, luminoso, que leva em si os cheiros do paraíso. Tudo é a perfeição. E ele continua a caminhar até ela. 
 Chegou. Ao lado da cama onde o futuro feliz dormita. Tem-na exactamente à sua frente. O seu corpo e ela, em suspensão, preso num momento de total graciosidade. Um anjo a descansar. E o sorriso continua agarrado de unhas e dentes àquela cara cansada, gasta. Ele flecte as suas pernas junto à extremidade da cama que flutua diante de si, uma nuvem, e fecha os olhos. Fecha-os e quase que vê mais ainda. De repente, o entrelaçado de sensações, cheiros, imagens e sonhos que jorram daquele amanhecer, daquele novo dia, fazem-no estremecer por dentro. As suas costas são rasgadas, de cima a baixo, por um fulminante arrepio. Um arrepio diferente dos arrepios normais. Não vem do frio ou do medo, vem do fogo que o amor deixa como rasto quando vagueia por um corpo simples, adormecido, dormente. Um arrepio de recomeço. 

Assim, alimentado pela brisa de uma nova vida, de uma nova esperança, ele aproxima-se dela, do seu corpo, da sua cabeça, do seu brilho. Ainda agachado de encontro às aresta da cama, deixa o seu braço baloiçar pelo ar até cair em torno dela. Outro arrepio. Aproxima a sua cabeça da dela, e como se fosse dar um trago numa bebida quente, deixa os seus lábios tocarem na face quente daquela que o faz respirar. Beija-a. Com ternura e leveza. Com carinho, com cuidado, com tudo. E o mundo nasce de novo. Um big bang num quarto na penumbra. Pousa a sua face na dela, fecha os olhos com muita força, com a força de quem se quer agarrar a um futuro bom. Quer aquilo para sempre. Quer aquilo até ao fim. Tanto querer, tanto sentir, tanta coisa, tanta coisa que leva agora consigo, todo ele é combustão. Combustão de tudo de mau que levava, pesadamente, às costas. Tudo isso se incendeia e faz libertar o que usará para construir a vida que quer partilhar com ela. 
Encosta os seus lábios na orelha dela, deixa-os suspensos por entre a cortina de veludo que é o seu cabelo, e solta-se. "Sempre esperei por ti."

Diogo Lopes

Capela de negro.


A capela branca está vestida de preto. Por entre dourados ícones de carinho, de amizade, jaz o defunto do nosso futuro. Do meu amor. 
Lá fora está escuro, vento. Nenhuma luz se sente, nenhum perfume se cheira. Só vento e dor. Dor fria, em rajadas aguçadas. Portadas tremem, ferolhos chiam, mas nada oiço. Estou aqui, de joelhos, junto ao caixão do sonho que alimentei. Vergado.
Chegou ao fim o princípio que nunca o foi. Como um dia de primavera chegaste quente, acolhedora. Banhaste a minha alma com o calor de um sonho bom. Com esperança, com vida. Fizeste esquecer a dor, a solidão de quem procura vendado o futuro que nem conhece bem. Um glorioso amanhecer.
Mas a tarde começava a chegar e o sol foi, lentamente, mudando de sítio. Fui correndo atrás dos raios que nasciam de ti, fugindo da sombra do passado, da sombra do desespero de outros dias. Tudo em vão. 
Foste-te escondendo, roubando o que tinhas dado, e não quis acreditar. Corri contra o horizonte que fugia a cada paço; que te ia levando para outra altura, outro sítio. Corri, sem fôlego, corri, sem parar. Tirei forças de cada refego da minha pele, de cada música, de cada livro. Sem água nem comida corri. 
Foi encharcado de suor sofrido que me apercebi que o dia acabava. O teu sol tinha de iluminar outros mundos sortudos, outras terras mais ricas, mais férteis. 
O vento uivava agora nas folhas brilhantes das árvores que fechavam o tecto do meu percurso. Engolido pela natureza da vida continuava a correr. Todas as passadas como tiros, como facadas. Via o fim é deixava de perseguir e passava a fugir. Da sombra, do escuro, do castelo gelado onde vivem os escravos do amor. Ofegante, dorido, partido e seco via os contornos religiosos de uma capela nua de cor, de relevo. Estaria seguro aí? Ver-te-ia na candura de um altar singelo, ameno? 
Comecei a ganhar um alento novo, diferente. Alimentava-me agora, depois de léguas de gravilha ensanguentada, de uma réstia de esperança que brotava do edifício que se definia no escuro, aos poucos, à minha frente. Uma saída daquilo que me engolia. 
Chutei as portas com o vigor de mil soldados de ego ferido e vi uma capela branca pintada de preto.
Tinha chegado ao funeral daquilo que me tinha feito voltar a acreditar na realidade de uma felicidade partilhada. Cheguei e, de repente, deparei me com o que me perseguia. 
Engolido na tempestade de um amor desfeito, desmoronei aos pés do caixão de mogno que guardava os sorrisos, lágrimas e carícias que ficavam, a partir de agora, presos num futuro do passado; suspensos no ar que emana o novo amor e fechados nesse retângulo, nesse estojo cirúrgico com o qual me mutilei durante meses. 
Peça a peça tinha tirado do corpo etéreo do que virá aquilo que julgava vir a ter. Estava tudo ali, fechado, selado pelo destino que me recusou este desfecho.
Velava na dor a felicidade que tinha falecido.
Os meus joelhos começavam a borbulhar no mármore frio que sustinha a minha carne. Só carne e ossos e pele. Não era um ser... Era carne, ossos e pele.
 As minhas lágrimas tinham formado uma poça que crescia. Estava a dissolver-me no vazio, no gelado. Seco de reações, de ar, fui me desfazendo, lentamente, aos pés do amor morto. Não me mexi. Nem um músculo. Queria desaparecer, tornar-me líquido e infiltrar- me por entre o solo que faz esquecer pessoas. Queria ser esquecido do mundo para que nem a minha memória pudesse sobreviver. Um patamar de morte absoluto, esmagador. Nem a memória do meu sofrimento poderia restar.
Fui escorrendo...
Em pouco tempo restava apenas um círculo líquido daquilo que havia sido um homem com o amor de universos. Tinha desaparecido do mundo como ele tinha desaparecido de mim. 
As portas abriam-se de novo, agora solenes e cerimónias. O vento entrava, violento, e a capela era sugada pelo tornado que tinha nascido lá fora. Em segundos tudo desapareceu. O caixão, as velas, o preto, as paredes, o tecto. Tudo voou. Tudo foi-se embora. Tudo menos um círculo de terra húmida, salgada. Dali não nasceria mais nada para sempre. Tudo desapareceu e nunca mais regressará. 

Diogo Lopes


terça-feira, 18 de junho de 2013

Memória.


Somos memória.
Dos dias que começam e acabam ficam as imagens que gravamos dentro de nós. Um café aconchegante, uma conversa quente, um sorriso doce. 
Enchemos livros com estes cristais de tempo que congelamos naquilo que entra pelos nossos dedos, se sente pelos nossos olhos. Gotas de chuva num rosto que a recebe por gosto e vontade. Lençóis de calor seguro que escondem pernas que dormem. 
Amontoam-se pilhas de volumes grossos escritos com a tinta do tempo... Alguns ensanguentados, outros brilhantes e intocáveis. Torres de vida, de momentos, vão fazendo nascer uma estrela, uma nebulosa que paira por entre músculos e veias que se vergam perante a sua presença. A alma. 
Como um poço sem fundo, este novelo de ar e névoa que faz casa em nós, vai devorando o dia-a-dia. Comendo cada beijo de noite estrelada, cada livro de lagrimas marcado. 
Durante o sopro que é estar aqui, a escrever este texto, a respirar o perfume desta almofada, tudo o que é, cai em nós, fica lá guardado para sempre. As pinceladas de tempo que passa vão colorindo aquilo que se esconde no canto de uma boca que sorri, no centro de uns olhos que choram. A alma.
Somos memória porque ela é a alma.
O que deuses disputam e músicas cantam está entre nós. Só sobrevive nas nossas conversas, nos nossos abraços. 
A vida dura até o corpo deixar de o fazer, mas como profetas dizem e Messias rectificam a alma sobrevive. Não passa de um desenho feito pelo homem que vive, sente, pensa e faz. Só é imortal se a tornamos única, se ficar para sempre na boca de gerações e gerações de filhos e netos. A alma imortal está nas marcas que deixámos, pelos trilhos percorridos durante o trocar de sopros que é a vida. Está no coração daqueles que tocamos, na vida daqueles que ajudamos a criar. Isso é o paraíso. O coração dos que ficam para nós enterrar. Enquanto permanecermos na memória dos que em nós viram algo alguma vez, podemos dormir com a certeza de que todos os dias veremos o sol nascer, porque aí a vida será eterna. Na memória. A nossa na dos outros.

Diogo Lopes

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Enganos à chuva.


Embalado por água pisada, entro no sono que me dá enchimento. Fecho os olhos, deixo a minha cadeira descair e sinto o mundo a levantar-se dos meus ombros. Embrulhado numa nuvem fresca de água, som e descontracção divina encontro o meu lugar. Crónico. Casa. Tanto me tento integrar para quê? Tenho o que preciso em mim. Neste carro de vidros riscados por gotas de chuva que brincam às corridas. Com esta brisa a afagar a minha cara, com estas mãos de ar que sabe bem, com este dedilhar, teclar, que vai completando os buracos que exibo a mim próprio, por dentro.

“Queria dar-te a mão.”

Afinal estou só triste, com frio, num carro molhado pela chuva que encharcou o meu cabelo. 

Diogo Lopes

Praia.





Sente-se no ar a névoa de um dia bem passado. Um sol envergonhado prega-nos partidas escondendo-se, de quando em quando, atrás das nuvens que enquadram o céu que sobrevoo-a esta praia. O mar vai-se desdobrando à nossa frente como a toalha de linho branco que a minha mãe desenterrava nos dias de festa. Uma toalha linda, brilhante, suave, tal e qual como esta água que salpica este nosso momento. Mágico. A areia descansa. Gasta. Cansada de suportar pés, mãos e tudo mais que país de família levam e trazem em bagageiras poeirentas e submissas.  A areia. O mar. O céu. O vento. Tu, eu, e este dia que não quero que acabe mais. Encosta-te a mim e vamos completar os livros que deixámos por acabar. 

Diogo Lopes

Morri.


Hoje foi o último dia da minha vida. Morri. Cheguei ao fim. Deixo a minha carne para trás, deixo as minhas coisas. No último suspiro que sai de mim, deixo tudo isso para trás. O meu vento espalha aquilo que não vai comigo, aquilo que fica do que passa. Choro. A dor do desaparecer assalta quem me quer bem e não tem pudor em o fazer. Vou viajando, flutuando pela minha galeria de memórias que me faz recordar, com saudades, com raiva. A colecção fechou, não pintei mais nenhum quadro com as cores que a vida e o destino juntos fazem surgir na paleta que levei em mim. Acho que a usei bem. Equilibrei os escuros com os claros, aperfeiçoei cada retrato, cada paisagem, não deixei nenhum sombreado por retocar. Sei que vivi comigo, com o que acredito. Vivi com a paixão de quem sente até sentir deixar de ser algo e se tornar vácuo. Ri e fiz rir, fui feliz e dei felicidade. Sempre quis sufocar os meus com felicidade. Amei, amei muito, muito mesmo. Amei mais do que todo o ar que me tocou. Soube tão bem amar. No amar bom e no amar mau, percori as cores mais vivas do arco-íris. É assustador o tamanho que essas quatro letras assumem ao longo da linha que é a nossa carne. É tudo e não é nada ao mesmo tempo. A coroa mais brilhante e a peste mais venenosa. Mas de uma forma ou outra dá-nos luz. Dá-nos sol numa tarde fresca de Inverno, dá-nos uma brisa no calor vulcânico de Agosto. Dá-nos todas aquelas pequenas coisas que enchem poemas e livros. Manhãs de verão, o calor de um abraço terno, uma pequenina mão em volta de um dedo gasto. Amar é isto. É isto porque isto só se vê quando o nosso corpo se forra de calor, de arrepios, de ondas de choque que nos alimentam o espírito. Só sabemos o que coisas deste género são, depois de termos esculpido corações que pomos no bolso e lá ficam para sempre. Só se sente se se amar. Só se vive se se amar.
Já não sinto agora. Estou morto. Mas relembro o que senti. Relembro agora, nesta esfera transparente e luminosa onde me encontro a escrever estas palavras. Morto. Sei que outros, que amam, o relembram também. Isso ameniza a dor. Mas é isso que lhes deixo, que deixo a todos que se cruzaram comigo ao longo das estradas que palmilhei. Isso é a minha prenda para vós. Aquilo que fui. Um corpo de amor. Carne com amor dentro. Espero que vos preencha, que vos ensine alguma coisa. Que vos faça saber o que a minha vida foi e que com isso possam encontrar rumo na vossa. Só quero isso para vocês: felicidade num rumo que vos caiba que nem uma luva. Feita à medida. Seja na forma de um parceiro, seja na forma de um filho, seja na forma de um qualquer coisa. Mas que seja. Seja muito. Seja ao infinito. Se for saberei que não passei de fugida pela realidade dos continentes, dos países, das cidades e ruas. Saberei que o meu amor não foi em vão. Foi para vocês. 
Tenho de ir agora, a eternidade está a chamar-me. Vou vos vendo por aí. No sorriso dos vossos filhos. Na primeira folha que cai no outono. No calor de uma manta pesada. Eu estarei aí.

Diogo Lopes

Escuro.


Longe vão os tempos do sono tranquilo. O dormir, o descansar, o fim do mundo no fim do dia. À noite. No escuro que tornei sagrado desde sempre. O meu abrigo, a minha paz. À distância de um interruptor, de um estore. Fecha se a janela que expõem a rua lá fora. Está escuro e está laranja. A cor dos candeeiros que iluminam o caminho dos que são como eu. Dos que se encontram quando sol cai e a lua se levanta. Dos que se vêem melhor quando não se vê mais nada sem ser a escuridão. Não assusta, acalma, sossega. Mas não me tenho sentido calmo, não me tenho sentido sossegado. Tenho-me sentido assustado. O meu recanto virou suplício. Agora, quando fecho os olhos, no chão frio do quarto onde me estendo, vulnerável, aberto, deixei de ver negro. Deixei de ver o todo que antes me envolvia como uma manta quente envolve um querido filho. Protegido. Vejo te apenas a ti e ao medo que tu me trazes. O reverso da moeda dos apaixonados. Não és tu que me assustas. Como poderiam todos os amores de todos os mundos de todos os universos alguma vez me assustar. É o não te ter. É o tornar me órfão da ideia que tenho para nós. Nós não existe mas em mim parece existir desde o início de tudo. Desde o início dos átomos, desde o início das células, dos tecidos, dos órgãos, dos humanos. Tudo. Desde o início. E temo o fim. Temo o nosso mais do que o meu. Imaginar que tudo o que imaginei pode não passar de imaginação é ser esventrado de mim mesmo. É ver a foice da morte em si abrir me de alto a baixo e tirar-me tudo o que tenho de bom. Tudo o que me ilumina a partir de dentro. Deixar escorrer para o chão tudo isso e ver me apenas com o ressentimento egoísta, com a tristeza, com a raiva infantil de quem tudo quis e tudo perdeu. Passar a ser um cadáver que anda, fala e pensa mas que só ficou com doença, morte e tristeza. É ver-me engolido pelo negro vazio, não pelo meu negro cheio do qual perdi o rasto desde que fiquei sozinho com o teu amor nos meus braços.
Revolta me ser assim sabes? Sei que estou a olhar só para mim. Que estou cego pela branca pele que circunda o meu umbigo. Mas não consigo largar isto. Não consigo ser indiferente em relação ao que quase nem existe. É ridículo. Que culpa tens tu de eu te querer assim tanto. Que culpa tens tu que eu só veja o teu nome, que eu só veja a tua forma, o teu rosto. Nenhuma... É ridículo. Isto é ridículo. Eu sou ridículo. A minha cabeça e ridícula. Mas não consigo deixar de o ser. Eu tento, Deus, os homens, os animais, as pedras, a natureza sabe que eu tento... Mas não consigo. Tudo me faz correr de volta a ti. De volta ao que me faz querer ser velho e viver muitos anos, ter muitos filhos, ter muitos netos. Tu. O estrondoso tu. Sei que vou continuar assim até à espada cair. Até a sua lâmina de aço frio se vergar sobre o meu pescoço e partir, de uma assentada, todos os ossos do meu corpo e depois partir todas as metades dos ossos do meu corpo. Até cortar toda a minha pele, todos os meus músculos, tendões e veias. Até eu ouvir-te dizer me que não. Morro nesse dia. Morro, ressuscito e morro de novo. Uma morte a dobrar, a triplicar. Um sofrimento de gritos perdidos e sem fim. Uma dor que vem pura, concentrada. Cristalina de tão virgem que é. A partir desse dia, talvez, depois de muitos, muitos anos, me possa vir a reencontrar com a tal escuridão reconfortante de outros tempos. A mesma escuridão para um eu diferente. Mas trocaria a escuridão mais escura, o conforto mais confortável, a tranquilidade mais tranquila se pudesse um dia, sentir o teu cheiro apertado contra o meu peito. Na fortaleza dos meus braços. No eterno do meu beijo.

Diogo Lopes

Estivemos aqui.



Na noite, no escuro, no fundo de mim deito-me e deixo a simplicidade da vida cair pelo meu corpo. Gotas de memória, de emoção e de desejos por realizar vão encharcando as roupas com que escondo as marcas que a vida foi deixando. Que escolhi guardar. Neste corpo de amor, de entrega e de procura. Por ti, por mim, por algo que nem sei bem o que é. Mas procuro. Em tudo o que faço, tudo o que defendo ou ataco. Reflexos do espelho que todos somos. Reflexos dos outros que nos tornam nós próprios.

Indo rumo ao cantinho de luz que acredito estar reservado para mim tento colher aquilo que tocamos mas não nos cabe nas mãos, que cheiramos mas não nos entra pelo nariz. Raios de sol por entre folhas que crescem à nossa volta, indomáveis, flutuantes no cheiro que pinhais quentes de verão libertam. Tudo isso recolho, limpo e decoro, expondo como provas de uma vida que existe, que não se prende na limitação da carne que sempre enfraquece. A alma não, o espírito não. Esses duram, em nós e, mais tarde, na memória daqueles que nós tocámos. Essa é a prova frágil mas imponente de quem palmilhou calçadas, trilhos e praias sem se prender apenas na superfície ténue do imediato. São a prova de que navegamos embalados pelo soprar do amor, da amizade, da verdade. São a prova de que tiramos da música, das palavras, das paisagens e dos desamores aquilo que nos faz quem somos. Corpos e almas que precisam mais de sentir do que de respirar. São a prova de que estivemos aqui. 

Diogo Lopes