Longe vão os tempos do sono tranquilo. O dormir, o descansar, o fim do mundo no fim do dia. À noite. No escuro que tornei sagrado desde sempre. O meu abrigo, a minha paz. À distância de um interruptor, de um estore. Fecha se a janela que expõem a rua lá fora. Está escuro e está laranja. A cor dos candeeiros que iluminam o caminho dos que são como eu. Dos que se encontram quando sol cai e a lua se levanta. Dos que se vêem melhor quando não se vê mais nada sem ser a escuridão. Não assusta, acalma, sossega. Mas não me tenho sentido calmo, não me tenho sentido sossegado. Tenho-me sentido assustado. O meu recanto virou suplício. Agora, quando fecho os olhos, no chão frio do quarto onde me estendo, vulnerável, aberto, deixei de ver negro. Deixei de ver o todo que antes me envolvia como uma manta quente envolve um querido filho. Protegido. Vejo te apenas a ti e ao medo que tu me trazes. O reverso da moeda dos apaixonados. Não és tu que me assustas. Como poderiam todos os amores de todos os mundos de todos os universos alguma vez me assustar. É o não te ter. É o tornar me órfão da ideia que tenho para nós. Nós não existe mas em mim parece existir desde o início de tudo. Desde o início dos átomos, desde o início das células, dos tecidos, dos órgãos, dos humanos. Tudo. Desde o início. E temo o fim. Temo o nosso mais do que o meu. Imaginar que tudo o que imaginei pode não passar de imaginação é ser esventrado de mim mesmo. É ver a foice da morte em si abrir me de alto a baixo e tirar-me tudo o que tenho de bom. Tudo o que me ilumina a partir de dentro. Deixar escorrer para o chão tudo isso e ver me apenas com o ressentimento egoísta, com a tristeza, com a raiva infantil de quem tudo quis e tudo perdeu. Passar a ser um cadáver que anda, fala e pensa mas que só ficou com doença, morte e tristeza. É ver-me engolido pelo negro vazio, não pelo meu negro cheio do qual perdi o rasto desde que fiquei sozinho com o teu amor nos meus braços.
Revolta me ser assim sabes? Sei que estou a olhar só para mim. Que estou cego pela branca pele que circunda o meu umbigo. Mas não consigo largar isto. Não consigo ser indiferente em relação ao que quase nem existe. É ridículo. Que culpa tens tu de eu te querer assim tanto. Que culpa tens tu que eu só veja o teu nome, que eu só veja a tua forma, o teu rosto. Nenhuma... É ridículo. Isto é ridículo. Eu sou ridículo. A minha cabeça e ridícula. Mas não consigo deixar de o ser. Eu tento, Deus, os homens, os animais, as pedras, a natureza sabe que eu tento... Mas não consigo. Tudo me faz correr de volta a ti. De volta ao que me faz querer ser velho e viver muitos anos, ter muitos filhos, ter muitos netos. Tu. O estrondoso tu. Sei que vou continuar assim até à espada cair. Até a sua lâmina de aço frio se vergar sobre o meu pescoço e partir, de uma assentada, todos os ossos do meu corpo e depois partir todas as metades dos ossos do meu corpo. Até cortar toda a minha pele, todos os meus músculos, tendões e veias. Até eu ouvir-te dizer me que não. Morro nesse dia. Morro, ressuscito e morro de novo. Uma morte a dobrar, a triplicar. Um sofrimento de gritos perdidos e sem fim. Uma dor que vem pura, concentrada. Cristalina de tão virgem que é. A partir desse dia, talvez, depois de muitos, muitos anos, me possa vir a reencontrar com a tal escuridão reconfortante de outros tempos. A mesma escuridão para um eu diferente. Mas trocaria a escuridão mais escura, o conforto mais confortável, a tranquilidade mais tranquila se pudesse um dia, sentir o teu cheiro apertado contra o meu peito. Na fortaleza dos meus braços. No eterno do meu beijo.
Diogo Lopes

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