Pontilhados de amor, melancolia, paixão ou esperança fluem
no ar. Pontas dos dedos libertam gotas de chuva que respingam no chão com uma
musicalidade gloriosa. Subimos, descemos. Explodimos e encolhemos. Soltam-se,
de quando em quando, lágrimas furtivas que são espelho de uma alma magoada. E
os olhos choram. As mãos choram. Todo o corpo chora numa efervescência de sentimentos
escondidos. Cada nota, um beliscão na alma. Pura magia musical. A emoção reina.
E sinto-me minúsculo. Estantes e paredes levantam voo à minha volta,
fechando-me nos meus terrores e nos meus sonos. Mas há luz. Há propósito em
tudo isto. Isto purifica-me. As mesmas gotas que caiem levam consigo o medo, a
insegurança. Limpam uma alma suja de pensamentos maus e obsessivos. Solta os
grilhões de uma mente gasta e torna-a mais forte.
Os baixos vibram, ecoam no meu crânio. Cada dedilhar faz
saltar imagens de ti. Do que quero de nós. E o piano vem de novo. Agarro-me firme.
Tento não me afogar na onda escura que vem do Steinway. Nenhum náufrago alguma
vez passou por isto. Nenhuma força foi alguma vez tão grande quanto esta que me
quer atirar de uma ravina. Mas mantenho-me firme. Os músculos dos meus braços
começam a rasgar, mas mantenho-me firme. Estóico. Esta na altura de pegar no
ferro em brasa sem gemer. E vou conseguindo. As ondas começam a acalmar, já
começo a sentir peixes pelas minhas fracas pernas. A bonança esta a chegar.
Sobrevivo a este tufão de emoções mais forte, mais seguro. Sei quem sou, sei
quem quero.
Abro os olhos, a luz quente que trespassa o estore estragado
seca-me o rosto e dá o mote para o futuro que vou tornar glorioso. O peito
acalma-se. Respiro de novo. A faixa acaba, Alice descansa e Sassetti também.
Levanto-me e sigo o meu caminho. Obrigado Bernardo.
Diogo Lopes

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