segunda-feira, 17 de junho de 2013

Morri.


Hoje foi o último dia da minha vida. Morri. Cheguei ao fim. Deixo a minha carne para trás, deixo as minhas coisas. No último suspiro que sai de mim, deixo tudo isso para trás. O meu vento espalha aquilo que não vai comigo, aquilo que fica do que passa. Choro. A dor do desaparecer assalta quem me quer bem e não tem pudor em o fazer. Vou viajando, flutuando pela minha galeria de memórias que me faz recordar, com saudades, com raiva. A colecção fechou, não pintei mais nenhum quadro com as cores que a vida e o destino juntos fazem surgir na paleta que levei em mim. Acho que a usei bem. Equilibrei os escuros com os claros, aperfeiçoei cada retrato, cada paisagem, não deixei nenhum sombreado por retocar. Sei que vivi comigo, com o que acredito. Vivi com a paixão de quem sente até sentir deixar de ser algo e se tornar vácuo. Ri e fiz rir, fui feliz e dei felicidade. Sempre quis sufocar os meus com felicidade. Amei, amei muito, muito mesmo. Amei mais do que todo o ar que me tocou. Soube tão bem amar. No amar bom e no amar mau, percori as cores mais vivas do arco-íris. É assustador o tamanho que essas quatro letras assumem ao longo da linha que é a nossa carne. É tudo e não é nada ao mesmo tempo. A coroa mais brilhante e a peste mais venenosa. Mas de uma forma ou outra dá-nos luz. Dá-nos sol numa tarde fresca de Inverno, dá-nos uma brisa no calor vulcânico de Agosto. Dá-nos todas aquelas pequenas coisas que enchem poemas e livros. Manhãs de verão, o calor de um abraço terno, uma pequenina mão em volta de um dedo gasto. Amar é isto. É isto porque isto só se vê quando o nosso corpo se forra de calor, de arrepios, de ondas de choque que nos alimentam o espírito. Só sabemos o que coisas deste género são, depois de termos esculpido corações que pomos no bolso e lá ficam para sempre. Só se sente se se amar. Só se vive se se amar.
Já não sinto agora. Estou morto. Mas relembro o que senti. Relembro agora, nesta esfera transparente e luminosa onde me encontro a escrever estas palavras. Morto. Sei que outros, que amam, o relembram também. Isso ameniza a dor. Mas é isso que lhes deixo, que deixo a todos que se cruzaram comigo ao longo das estradas que palmilhei. Isso é a minha prenda para vós. Aquilo que fui. Um corpo de amor. Carne com amor dentro. Espero que vos preencha, que vos ensine alguma coisa. Que vos faça saber o que a minha vida foi e que com isso possam encontrar rumo na vossa. Só quero isso para vocês: felicidade num rumo que vos caiba que nem uma luva. Feita à medida. Seja na forma de um parceiro, seja na forma de um filho, seja na forma de um qualquer coisa. Mas que seja. Seja muito. Seja ao infinito. Se for saberei que não passei de fugida pela realidade dos continentes, dos países, das cidades e ruas. Saberei que o meu amor não foi em vão. Foi para vocês. 
Tenho de ir agora, a eternidade está a chamar-me. Vou vos vendo por aí. No sorriso dos vossos filhos. Na primeira folha que cai no outono. No calor de uma manta pesada. Eu estarei aí.

Diogo Lopes

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