Abre os olhos, devagar, deixando lentamente, a penumbra do nascer do sol dar vida às íris de cor verde que lhe dão o mundo. Que lhe dão ela. Esta a descansar ainda. Um anjo num nenúfar de linho branco, engelhado, impressão digital que revela o que se passou durante a noite. Na noite que durou mil noites. Mas ele não a olha logo, tem medo, medo de se aperceber de que tudo não passou de um sonho bom. Olha para o mogno pesado da cómoda que sustem um velho espelho, testemunha do verdadeiro eu que ele guarda dentro de si e que mais ninguém conhece. Um eu que chora, que dança e que faz caretas. O seu olhar vai subindo pelas linhas de madeira que fazem o móvel até que se detém no velho espelho. Não reconhece o que vê. Os traços que limam o seu rosto mantém-se, já os conhece de cor, mas a sua expressão hieroglífica não se assemelha a nada do que já viu. Olha para o seu reflexo, sarapintado por autocolantes que nascem pela superfície gelada do espelho, e vê o que esperou anos por ver. Vê o que o fez enlouquecer de desespero e esperança ao mesmo tempo. Vê Amor. Recíproco, genuíno e sem fim. Quase que nem consegue aperceber se disso... Disso que leva pintado na cara. Disso que nasceu do universo de sensações que está ali, deitado, ao seu lado, a respirar pequenas lufadas de eternidade no seu pescoço. Ela. Tudo.
Com a subtileza de quem engana linhas de chuva, fugindo pelos seus intervalos, destapa-se, lança com mil cuidados de veludo as pernas quentes para fora da cama e senta-se. Olha o espelho de novo. Vê o sol que cada vez cresce mais na sua cara. Sorri. Levanta-se e fica de pé. Com a cama nas suas costas. A olhar-se ao espelho. O velho espelho. A sua cara feliz. Respira fundo e vira-se para ela, a ternurenta ela. A razão pela qual o mundo gira esta ali, à sua frente, com uma gasta camisola de lã que ele usa inverno após inverno, entrelaçada nos lençóis de amor que tem para lhe dar. Cobririam o mundo inteiro, o universo. E ele sorri de novo. Sorri muito. Quer partir os maxilares só para poder sorrir ainda mais. Meu Deus, ela está mesmo ali. Ele quase que nem consegue acreditar, mas é verdade. Ela está mesmo ali, deitada, de olhos carinhosamente fechados, com um sorriso de favos de mel. Ela está ali.
Com passos de calma e cuidado, ele atravessa o mar de madeira que forra o chão até chegar ao porto seguro que observa com amor desde que acordou. É perfeita. Tudo nela o é. Desde os seus pés de desenho cuidado, que espreitam, sorrateiramente, pela ponta da manta de lã que a protege, até ao seu cabelo castanho, curto, luminoso, que leva em si os cheiros do paraíso. Tudo é a perfeição. E ele continua a caminhar até ela.
Chegou. Ao lado da cama onde o futuro feliz dormita. Tem-na exactamente à sua frente. O seu corpo e ela, em suspensão, preso num momento de total graciosidade. Um anjo a descansar. E o sorriso continua agarrado de unhas e dentes àquela cara cansada, gasta. Ele flecte as suas pernas junto à extremidade da cama que flutua diante de si, uma nuvem, e fecha os olhos. Fecha-os e quase que vê mais ainda. De repente, o entrelaçado de sensações, cheiros, imagens e sonhos que jorram daquele amanhecer, daquele novo dia, fazem-no estremecer por dentro. As suas costas são rasgadas, de cima a baixo, por um fulminante arrepio. Um arrepio diferente dos arrepios normais. Não vem do frio ou do medo, vem do fogo que o amor deixa como rasto quando vagueia por um corpo simples, adormecido, dormente. Um arrepio de recomeço.
Assim, alimentado pela brisa de uma nova vida, de uma nova esperança, ele aproxima-se dela, do seu corpo, da sua cabeça, do seu brilho. Ainda agachado de encontro às aresta da cama, deixa o seu braço baloiçar pelo ar até cair em torno dela. Outro arrepio. Aproxima a sua cabeça da dela, e como se fosse dar um trago numa bebida quente, deixa os seus lábios tocarem na face quente daquela que o faz respirar. Beija-a. Com ternura e leveza. Com carinho, com cuidado, com tudo. E o mundo nasce de novo. Um big bang num quarto na penumbra. Pousa a sua face na dela, fecha os olhos com muita força, com a força de quem se quer agarrar a um futuro bom. Quer aquilo para sempre. Quer aquilo até ao fim. Tanto querer, tanto sentir, tanta coisa, tanta coisa que leva agora consigo, todo ele é combustão. Combustão de tudo de mau que levava, pesadamente, às costas. Tudo isso se incendeia e faz libertar o que usará para construir a vida que quer partilhar com ela.
Encosta os seus lábios na orelha dela, deixa-os suspensos por entre a cortina de veludo que é o seu cabelo, e solta-se. "Sempre esperei por ti."
Diogo Lopes

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