Por entre o verde que pinta aquele jardim, o Grande descansa num banco de madeira velhinha.
Sente se cansado, sem fôlego depois de mais um ingénuo dia que ameaça aos poucos acabar.
De ombros nos joelhos e mãos no queixo deixa tombar para a frente a altura que lhe foi deixada pelo destino. Ele é um majestoso desperdício de comprimento e largura: espadaúdo e de costas largas faz lembrar os gigantes de outros tempos... De outras histórias. Aos olhos dos outros é de pedra. Seguro e firme como um homem daquele porte deve ser. Uma rocha coberta de pele rija, seca, desgastada pelo pesar da vida, mas sem um único rasgão. Nada conseguiria rachar aquela pessoa, aquele coração.
A Esperança gosta de pássaros. Desde pequenina. Costumava ir dar migalhas de pão seco de jantares e almoços passados com o avô, aos passarinhos que iam regressando aos cachos de viagens por céus de aventura.
Eles fascinavam-na, desejava todas as noites poder ver com os olhos das rolas, sentir o vento deslizante percorrer o seu corpo em quanto riscava céus como um pardal. Queria essa liberdade, essa sensação de união com o mundo natural que lhe dava vida todos os dias. Queria conhecer, explorar terras e mares longe do terreno da quinta dos seus avós que já lhe enchiam os dias de tédio e cinzento. Queria provar as sementes do oriente, o pão da América do Sul... Queria o mundo à distância de um bater de asas vigoroso, sem medo.
A Esperança gosta de pássaros mas não o diz a ninguém. O trilho que vai percorrendo, entre verdes e cores de laranja, é o mundo dela. O autocarro que a trouxe até ali é o mundo dela. Tudo é o mundo dela porque ela é o mundo dela. Vive fechada nas quatro paredes da sua cabeça, do seu coração. Tem jardins de ouro dentro de si, mil vezes mais bonitos que aquele que atravessa agora, mas não o mostra a ninguém, não o mostra nem ao Grande. O seu Grande. Esta a ir ter com ele agora.
"Às seis no jardim, combinado?"
Deixando para quem vier trechos de árvores e relva, começa a ver o Grande. Ainda faltam uns bons metros para chegar ao banco dos seus planos, mas ele salta-lhe logo à vista, qualquer pessoa o descobriria em qualquer lado, bastava procurarem a torre molengona, que rasga mares de cabeças, que logo o encontravam. Um farol de humanidade.
Beijinhos e "olás" são deitados fora e ficam os dois sentados, num quadro, digno de destaque museológico. Sente-se no ar a expectativa, o desejo de gritar, de vomitar de uma assentada todas as palavras que já disseram, pensaram ou imaginaram pensar. Porque não fala ela com ele? Porque não fala ele com ela? Por agora a resposta não surge mas, mesmo assim, ele arrisca e pergunta:
"estas a ver a margem de lá do lago?"
Ela acena com a cabeça que sim e vira-se para ele como uma criança que houve um velhote a falar de tempos que já não o são.
"Gosto de me sentar aqui e imaginar que do lado de lá fica o teu coração. Que só tenho de atravessar este lago para poder ouvir a música que toca quando fechas os olhos."
O Grande era de rocha, mas de vento também. Passava despercebido por todos como um naco de carne empilhada, como uma Esfinge antiga e pesada. Mas a verdade é que o recheio daquela vida era de veludo fino, requintado. Escrevia poemas na parte de dentro da sua carapaça, pintava quadros com as cores que levava sempre no seu coração. O tempo tinha o feito para resistir, mas a vida tinha-lhe dado alma. Uma alma que só a ela dava a mostrar. Só ela tinha direito de a ver. Ele era para ela, o verdadeiro ele.
"se ao menos fosse assim fosse assim tão fácil..." saiu por entre os lábios gretados do Grande.
Ela estava perplexa... Não sabia o que dizer, como reagir. Sempre viu nele uma diferença quente, aconchegante, mas nunca a tinha procurado. Nunca tinha dado a mão para que ele a pudesse puxar um bocadinho mais para dentro da vida que nele existia. Passaram-se dias, meses, desde que se tinham conhecido, naquele mesmo jardim, numa manhã de Inverno, mas nunca tinha sido capaz de o procurar, ele não se conseguiria esconder também, é fácil não o perder de vista... Mas desta vez foi diferente. O que ouviu mexeu com ela, tocou-a. Talvez fosse a voz desanimada, sem abrigo do Grande naquele fim de tarde. Talvez fosse do lago que criava dois céus, um em cima e outro em baixo. Mas dessa vez foi diferente, dessa vez viu que o mundo que tinha criado por si, onde tinha feito casa, onde tinha raízes, afastava-a das planícies do norte de África, dos vales da América do Norte. As asas da sua vida estavam coladas aos sonhos que guardava para si e nunca tinha conseguido levantar voo, deslizar. Sentiu-se profundamente triste mas algo mexeu-se. No meio da enxurrada que corria dentro dela as mãos dele, ainda coladas ao seu portentoso queixo, chamaram o seu olhar. As mãos mais delicadas que tinha visto. Um monstro com mãos de anjo, mãos de pianista. Dedos finos, suaves, numa mão gasta mas com ternura por dar. Viu nas palmas das mãos do Grande um céu azul, bafejado de uma brisa ligeira, aromática e temperada. Por segundos pensou nos seus pássaros. Na liberdade que a fazia glorificá-los, na vida que queria ter mas com que apenas sonhava. Levantou-se. Começava-se a sentir o vento. De fronte dele, estendeu as suas mãos em busca das dele, que se encontraram. Fechou por um segundo os olhos e puxou-o do seu assento. Estavam em pé agora um a frente do outro. De olhos e mãos dadas.
"Anda, vamos passear."
E em direcção ao sul começaram a andar, com o nome dela a envolve-los enquanto um bando de andorinhas lhes protegia, lá do alto, os campos que iriam atravessar.
Diogo Lopes

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