Na noite, no escuro, no fundo de mim deito-me e deixo a simplicidade da vida cair pelo meu corpo. Gotas de memória, de emoção e de desejos por realizar vão encharcando as roupas com que escondo as marcas que a vida foi deixando. Que escolhi guardar. Neste corpo de amor, de entrega e de procura. Por ti, por mim, por algo que nem sei bem o que é. Mas procuro. Em tudo o que faço, tudo o que defendo ou ataco. Reflexos do espelho que todos somos. Reflexos dos outros que nos tornam nós próprios.
Indo rumo ao cantinho de luz que acredito estar reservado para mim tento colher aquilo que tocamos mas não nos cabe nas mãos, que cheiramos mas não nos entra pelo nariz. Raios de sol por entre folhas que crescem à nossa volta, indomáveis, flutuantes no cheiro que pinhais quentes de verão libertam. Tudo isso recolho, limpo e decoro, expondo como provas de uma vida que existe, que não se prende na limitação da carne que sempre enfraquece. A alma não, o espírito não. Esses duram, em nós e, mais tarde, na memória daqueles que nós tocámos. Essa é a prova frágil mas imponente de quem palmilhou calçadas, trilhos e praias sem se prender apenas na superfície ténue do imediato. São a prova de que navegamos embalados pelo soprar do amor, da amizade, da verdade. São a prova de que tiramos da música, das palavras, das paisagens e dos desamores aquilo que nos faz quem somos. Corpos e almas que precisam mais de sentir do que de respirar. São a prova de que estivemos aqui.
Diogo Lopes

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