terça-feira, 18 de junho de 2013

Memória.


Somos memória.
Dos dias que começam e acabam ficam as imagens que gravamos dentro de nós. Um café aconchegante, uma conversa quente, um sorriso doce. 
Enchemos livros com estes cristais de tempo que congelamos naquilo que entra pelos nossos dedos, se sente pelos nossos olhos. Gotas de chuva num rosto que a recebe por gosto e vontade. Lençóis de calor seguro que escondem pernas que dormem. 
Amontoam-se pilhas de volumes grossos escritos com a tinta do tempo... Alguns ensanguentados, outros brilhantes e intocáveis. Torres de vida, de momentos, vão fazendo nascer uma estrela, uma nebulosa que paira por entre músculos e veias que se vergam perante a sua presença. A alma. 
Como um poço sem fundo, este novelo de ar e névoa que faz casa em nós, vai devorando o dia-a-dia. Comendo cada beijo de noite estrelada, cada livro de lagrimas marcado. 
Durante o sopro que é estar aqui, a escrever este texto, a respirar o perfume desta almofada, tudo o que é, cai em nós, fica lá guardado para sempre. As pinceladas de tempo que passa vão colorindo aquilo que se esconde no canto de uma boca que sorri, no centro de uns olhos que choram. A alma.
Somos memória porque ela é a alma.
O que deuses disputam e músicas cantam está entre nós. Só sobrevive nas nossas conversas, nos nossos abraços. 
A vida dura até o corpo deixar de o fazer, mas como profetas dizem e Messias rectificam a alma sobrevive. Não passa de um desenho feito pelo homem que vive, sente, pensa e faz. Só é imortal se a tornamos única, se ficar para sempre na boca de gerações e gerações de filhos e netos. A alma imortal está nas marcas que deixámos, pelos trilhos percorridos durante o trocar de sopros que é a vida. Está no coração daqueles que tocamos, na vida daqueles que ajudamos a criar. Isso é o paraíso. O coração dos que ficam para nós enterrar. Enquanto permanecermos na memória dos que em nós viram algo alguma vez, podemos dormir com a certeza de que todos os dias veremos o sol nascer, porque aí a vida será eterna. Na memória. A nossa na dos outros.

Diogo Lopes

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