quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Um dia que foi noite.



Pó no alto e vozes alegres puxam a noite do seu esconderijo. Depois de quilómetros rodados e de músicas mal cantadas entramos na casa de campo que nos irá receber durante esta noite. Terras soltas e capim fazem o nosso coração saltitar ainda mais. A brisa fresca afasta desejos de mar mas chama por o copo que se vai querendo generoso. Tudo nos faz querer que coisas boas estão para vir: amigos, música e liberdade jorram por entre a seiva dos eucaliptos que nos abrigam, exalam da relva onde nos sentamos para viver. Despreocupados e com a vontade de viver. Todos sorrimos, mas eu sorrio mais ainda.

Para juntar às horas felizes onde troco risos e momentos bons entre os amigos, sei que lá, aí, aqui, estás tu. No meio das planícies arenosas que nascem entre luzes coloridas e roulottes. Estas tu. Quase não te conheço, quase parece inventado a origem das nossas palavras, mas começo a ver coisas boas à minha frente. Coisas boas de olhos claros e cabelo curto. Coisas boas que não sei de cor mas que reconheço como o próprio toque das minhas mãos.

Vejo-te ao fundo, leve mas com vontade de parecer pesada. Simples, querida. Vejo-te ao fundo e chamo por ti. Finalmente. Estas aqui e dou-te um abraço. Cheiras bem. A tua pele e macia. Trocamos palavras, olhares, e sinto-me bem, muito bem. Sinto-me como me fazes sentir. Bem. As músicas vão saindo disparadas, as luzes trespassam-me os olhos embaciados, salto, corro, danço, celebro cada fôlego extasiado que sai de mim. Não era o mesmo sem ti.

Dei-te a mão, dei-te o braço, dei-te o meu sorriso e o brilho dos meus olhos. Na noite que nos emoldurava quis-te dar o que pudesse. Beijos ternos, assanhados e carinhosos foram soltos por nós numa indiferença estoica para com o mundo. Quis que te perdesses nos meus braços com cada toque, com cada caricia que quis que sentisses. Ingénuo e contente fui aproveitando tudo o que o escuro podia dar aos maiores corações que podiam começar a abrir.

Começava a sentir no fundo da nuca o frio do fim da noite. Faltava um concerto e eu que não estava contigo. Tinha te na cabeça mas o meu corpo foi da música, foi dos companheiros com quem tanto já passei. Loucuras e brincadeiras iam explodindo entre nós mas nada que se compare com o que foi sentir o teu toque, no meio da multidão, a chamar por mim. Voltaste: como te queria naquela altura. Puxei-te para mim, entrelacei os meus braços em volta do teu corpo e deixei a minha cabeça assentar no teu ombro. Sustentava toda a minha realidade naquele momento, o teu ombro. Beijei-te o pescoço, cantei no teu ouvido, dançamos e soube, mesmo quando as luzes nos cegavam de êxtase, que era ali que tinha de estar. Era contigo que queria partilhar aquele momento. Só contigo. Gosto de ti.

A multidão dispersou, as luzes acalmaram, a música parou e continuei contigo ao pé de mim. Não me queria ir embora, não queria uma despedida. Mas não deu. Teve de ser. Confrontado com a fatalidade de te ter de deixar, resignei-me. Estavas cansada, bocejavas e o teu corpo delicado já pedia por descanso. Eu esqueci-me das dores nas costas, da enxaqueca e das pernas trôpegas porque não queria ir embora. Mas teve de ser.

Caminhamos a sorrir, de mão-dada e com histórias felizes a saírem das nossas bocas. Chegava o portão que me fecharia a porta da tua mão. Que me ia deixar mais pobre nessa noite. Tu com o meu casaco, eu com o calor de quem gosta de alguém. Tu abraçada a mim e eu a querer ter mais braços só para te apertar ainda mais contra o meu peito. Beijei-te como se fosse deixar de te ver para sempre. Quis selar a minha alma em ti com os meus lábios. Quis sentir a tua respiração a invadir o meu corpo e a contagiar-me ainda mais. Senti as tuas mãos na minha cintura a incendiar a minha pele. A gravar a quente a vontade que tenho de ti. Com calma as tuas mãos deslizaram até ao meu peito e foi o adeus. Beijinhos, fica bem. E assim desapareceste no meio da multidão cansada com o meu casaco e um pouco de mim.

Andamos e andamos e andamos no escuro onde as luzes dos carros davam nova vida ao pó que morava naquele sítio. Ia bem até. De vez em quando tinha de olhar para o acampamento que te guardava na esperança tola de te poder ver. Mas ia bem. A ressaca de ti ainda estava distante e embriagado sorria com pedaços teus ainda nos meus lábios, nas minhas mãos, no meu coração. O carro benzido pela neblina que ofuscava aquele descampado foi a nossa casa por umas horas. Como companheiros de aventuras já não nos era estranho passar uma noite desconfortável de corpo mas aquecida pela amizade. Fechei os olhos e o dia acabou mais uma vez.

Frio e boca seca deram-me os bons dias. Estava luz e nevoeiro. Não estavas tu. A tua ausência começava a moer a base da minha nuca como uma enxaqueca que desperta. Mas a vontade de levar seguros a casa os meus amigos, por uns segundos, consegui entreter-me enquanto o nascer do dia se desdobrava no para-brisas sujo. A chegada a casa foi tranquila. Comemos. Bebemos. Descansamos. Todos fecharam os olhos, eu fiquei para último porque algo me puxava os cabelos. Algo dizia que tinha de ir para o teu lado de novo. Esforcei-me para tirar isso das minhas pálpebras que se fecharam. De respiração leve e sono profundo pensei que estava a salvo. Engano. Nem em mim estava seguro da vontade de te voltar a ver. Entraste nos meus sonhos, intrépida e sem pedir autorização. Disseste que me querias também como eu te queria a ti. Devo ter sorrido de olhos fechados. De certeza.

Mais uma vez acordei, já com o sol bem alto. Os excessos do dia anterior partiam-me a força e a energia de me levantar, mas lá fui. Tudo pronto, tudo arranjado e sem nada para fazer. Inventei uma desculpa para sair e distrair-me da noite que tinha passado e me deixado embeiçado por ti. Mas nada funcionou. Por muitos prédios e muitas caras que visse era a tua que mais desejava ter entre as minhas mãos, pronta para um beijo doce como aqueles que já trocamos.

E estou aqui agora: sozinho, com as palavras e a música como minha companhia. Com a ressaca da tua ausência a esmagar a minha cabeça e o meu coração. Procuro consolo nas palavras que nascem dos meus dedos. Desejo que o tempo voe para estares de volta. Invento desculpas para a mensagem que ficou por responder. Desespero em pleno exagero com o medo de não estares no mesmo sitio que eu. Não me teres tão bem quanto te tenho a ti.

Não sei do futuro. Não confio no que a minha cabeça suja me diz. Sei que gosto de ti. Começa a nascer alguma coisa que o sono e o cansaço tornam hipérbole. Mas sei que não quero ser um caso, um que aconteceu e depois foi. Vejo coisas boas em ti que não vejo em mais ninguém. Acredito que histórias felizes podem nascer. Espero por ti então. No quarto escuro onde parti tudo o que dá luz espero por ti. Quero voltar a ver-te. Quero tentar contigo. Quero que a saudade vá com o vento e me traga de volta os tempos que já tivemos juntos. É pouco mas agora preciso de qualquer coisa. Qualquer coisa de ti. Qualquer coisa teu. Qualquer coisa que me traga a vontade de dormir porque eu não sei onde ela para.

Diogo Lopes  



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