Acordo abraçado à melancolia que visto como pele. Os meus olhos vão abrindo lentamente, por entre intermitências de preguiça e coragem. Sinto os lençóis de flanela a aconchegar o ninho onde guardo quem sou. O seu azul claro engana quem veja de fora, fazendo crer que de alegria se constrói este porto de descanso e abrigo. Estico os braços e as pernas que serpenteiam por entre o quente das ideias e pensamentos que deixo escorrer todas as noites, na almofada que sustem a minha cabeça nesse mundo privado. Não sei o que aconchega mais: se o calor da roupa da cama, o seu peso bom, se o mundo que construo em mim desde o primeiro dia em que acolhi a solidão que carrego como cicatrizes de um castigo sem fim. Pele, carne rasgada que sarei por mim próprio. Portas de entrada para a casa dentro de mim. Neste colchão, neste quarto iluminado ao de leve pela penumbra do dia novo, vivo em mim, passeio em mim, e tudo parece mais fácil. Não preciso de sentir a minha diferença, não preciso de me esforçar por a tentar atenuar. Neste colchão posso pousar o fardo pesado que é existir neste mundo e sentir-me em paz. Em união comigo mesmo. Tenho tanta pena. Tenho tanta, tanta pena que seja assim. Pena de ver o caminho que o mundo leva, pena de ver o percurso sinuoso que as pessoas que o carregam percorrem. Paço a paço fogem da sua humanidade. Da simplicidade das coisas puras, do calor que surge na combustão dos sentimentos. Daquilo que nasce logo que o nosso destino se começa a escrever. A vida. Deitada fora por tantos, todos os dias.
Prefiro a minha cama: não escorrem olhares vazios para cima dela, ouve-se o barulho dos pensamentos que serpenteiam nas dobras dos lençóis, aconchega-se o sonhar com carinho e valor. É este o berço onde renasço todos os dias. É este o tónico que me dá força para ser fiel às tabuas e pregos que sustem a minha pele. É aqui que sou, só isso.
É preciso força para manter esperança no bom que o mundo guarda. É preciso não deixar de acreditar que por entre o vento gelado da descrença e os corpos flutuantes que por ele navegam existe mais qualquer coisa, mais do que olhares que brilham só pela genica efémera dos movimentos que a noite oferece. É real a luz que nos toca quando franzimos os olhos e espreitarmos para lá do nevoeiro. O sonho que alguns deixam crescer no peito não está preso nas fantasias ingénuas de quem deseja por mais. Existe amor, ele é real. Não é aquele que surge nas cores de ecrãs que o distorcem: é o puro. Aquele que te vale por todas as vidas que por esta terra já caminharam e, ao mesmo tempo, te faz desejar que nunca a luz do sol tivesse tocado na tua pele. Da montanha mais alta á fossa mais imunda, da saúde à doença, esse amor existe e é precisamente por ser do tamanho do tempo que torna a vida completa. Real.
Hoje duvidei por instantes naquilo que já sei de cor, nem o melhor pregador resiste á tristeza fulminante que levanta dúvidas como se fossem grãos de areia. Quando o coração acelerado entra em delírio não existe razão que o impeça de fugir loco para o mar alto do desespero dos que são como eu… Agora estou mais calmo, a música e as palavras têm o dom de domar o pulso disparado de um corpo desvairado. Mas olho para as últimas horas que fugiram deste dia e posso dizer que os tremores e os olhos embaciados não me fazem arrepender de ser assim. Provam que vivo na corrente frenética do correr da vida e ela vive em mim também.
Na cama ainda faço do quente minha casa, ainda estou a ganhar coragem para mais uma batalha contra a corrente padrão, mas olho para a janela…
Está um dia bonito lá fora: sol alegre, escondido em pós de nuvem que cortam o calor. Céu bonito. Vejo-o da minha janela e lembro-me que hoje é mais um dia e a fome aperta.Diogo Lopes

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