quarta-feira, 19 de junho de 2013

Capela de negro.


A capela branca está vestida de preto. Por entre dourados ícones de carinho, de amizade, jaz o defunto do nosso futuro. Do meu amor. 
Lá fora está escuro, vento. Nenhuma luz se sente, nenhum perfume se cheira. Só vento e dor. Dor fria, em rajadas aguçadas. Portadas tremem, ferolhos chiam, mas nada oiço. Estou aqui, de joelhos, junto ao caixão do sonho que alimentei. Vergado.
Chegou ao fim o princípio que nunca o foi. Como um dia de primavera chegaste quente, acolhedora. Banhaste a minha alma com o calor de um sonho bom. Com esperança, com vida. Fizeste esquecer a dor, a solidão de quem procura vendado o futuro que nem conhece bem. Um glorioso amanhecer.
Mas a tarde começava a chegar e o sol foi, lentamente, mudando de sítio. Fui correndo atrás dos raios que nasciam de ti, fugindo da sombra do passado, da sombra do desespero de outros dias. Tudo em vão. 
Foste-te escondendo, roubando o que tinhas dado, e não quis acreditar. Corri contra o horizonte que fugia a cada paço; que te ia levando para outra altura, outro sítio. Corri, sem fôlego, corri, sem parar. Tirei forças de cada refego da minha pele, de cada música, de cada livro. Sem água nem comida corri. 
Foi encharcado de suor sofrido que me apercebi que o dia acabava. O teu sol tinha de iluminar outros mundos sortudos, outras terras mais ricas, mais férteis. 
O vento uivava agora nas folhas brilhantes das árvores que fechavam o tecto do meu percurso. Engolido pela natureza da vida continuava a correr. Todas as passadas como tiros, como facadas. Via o fim é deixava de perseguir e passava a fugir. Da sombra, do escuro, do castelo gelado onde vivem os escravos do amor. Ofegante, dorido, partido e seco via os contornos religiosos de uma capela nua de cor, de relevo. Estaria seguro aí? Ver-te-ia na candura de um altar singelo, ameno? 
Comecei a ganhar um alento novo, diferente. Alimentava-me agora, depois de léguas de gravilha ensanguentada, de uma réstia de esperança que brotava do edifício que se definia no escuro, aos poucos, à minha frente. Uma saída daquilo que me engolia. 
Chutei as portas com o vigor de mil soldados de ego ferido e vi uma capela branca pintada de preto.
Tinha chegado ao funeral daquilo que me tinha feito voltar a acreditar na realidade de uma felicidade partilhada. Cheguei e, de repente, deparei me com o que me perseguia. 
Engolido na tempestade de um amor desfeito, desmoronei aos pés do caixão de mogno que guardava os sorrisos, lágrimas e carícias que ficavam, a partir de agora, presos num futuro do passado; suspensos no ar que emana o novo amor e fechados nesse retângulo, nesse estojo cirúrgico com o qual me mutilei durante meses. 
Peça a peça tinha tirado do corpo etéreo do que virá aquilo que julgava vir a ter. Estava tudo ali, fechado, selado pelo destino que me recusou este desfecho.
Velava na dor a felicidade que tinha falecido.
Os meus joelhos começavam a borbulhar no mármore frio que sustinha a minha carne. Só carne e ossos e pele. Não era um ser... Era carne, ossos e pele.
 As minhas lágrimas tinham formado uma poça que crescia. Estava a dissolver-me no vazio, no gelado. Seco de reações, de ar, fui me desfazendo, lentamente, aos pés do amor morto. Não me mexi. Nem um músculo. Queria desaparecer, tornar-me líquido e infiltrar- me por entre o solo que faz esquecer pessoas. Queria ser esquecido do mundo para que nem a minha memória pudesse sobreviver. Um patamar de morte absoluto, esmagador. Nem a memória do meu sofrimento poderia restar.
Fui escorrendo...
Em pouco tempo restava apenas um círculo líquido daquilo que havia sido um homem com o amor de universos. Tinha desaparecido do mundo como ele tinha desaparecido de mim. 
As portas abriam-se de novo, agora solenes e cerimónias. O vento entrava, violento, e a capela era sugada pelo tornado que tinha nascido lá fora. Em segundos tudo desapareceu. O caixão, as velas, o preto, as paredes, o tecto. Tudo voou. Tudo foi-se embora. Tudo menos um círculo de terra húmida, salgada. Dali não nasceria mais nada para sempre. Tudo desapareceu e nunca mais regressará. 

Diogo Lopes


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