domingo, 30 de junho de 2013

Um dia de verão.



Na sombra de um dia bem passado deito-me na relva verde dos sonhos de dias cinzentos. Cai sobre o mundo, sobre mim, uma fina película, de tons laranjas, amarelos e azuis-escuros, que começa a fechar o dia de que passou. Um dia bom. Com pessoas boas.

É nesta pausa, quente de alma e de pele, que eu fecho os olhos e celebro dentro de mim a alegria que é viver neste mundo, com quem me vê e gosta. Com o agasalho felpudo da amizade a embalar o meu coração. Na certeza de que não caminho sozinho, não caminho vazio. Tenho-vos a vós e mais ainda me têm vocês.

Não sabemos ainda que caminho este lusco-fusco esconde por entre o seu brilho. Por entre as pinceladas de quem o pintou. Que nos terá a lua reservado? Por agora espera-nos uma mesa cheia, feliz, onde nos sentamos e deixamos as teias da vida entrelaçarem-se num bonito pano que afasta a solidão e a tristeza. 

Risos, caras felizes e comida quente como o ar travado pela janela que nos enquadra. Tudo isto faz de mim uma pessoa. Como uma pessoa deve ser: preenchida, com rumo. Rumo cheiroso, refrescante no verão e apertado no Inverno. Até o amor põe a cabeça de fora e ameaça fazer uma visita.

Mais logo a música louca irá empurrar-nos até às ruas que salpicamos com sorrisos e abraços. Pontas cor-de-laranja iluminam o caminho que percorremos de copo e entusiasmo na mão: a vida é isto. É sentir alegremente as cores de uma memória boa a surgirem por entre o branco da rotina. É excitante ouvir as suas pinceladas vigorosas, os seus contornos a brotarem da ardósia preta que agora ganha cor. Somos felizes. Sou feliz. Aqui e com vocês.  


Diogo Lopes

segunda-feira, 24 de junho de 2013

O Grande da Esperança.



Por entre o verde que pinta aquele jardim, o Grande descansa num banco de madeira velhinha.
Sente se cansado, sem fôlego depois de mais um ingénuo dia que ameaça aos poucos acabar. 
De ombros nos joelhos e mãos no queixo deixa tombar para a frente a altura que lhe foi deixada pelo destino. Ele é um majestoso desperdício de comprimento e largura: espadaúdo e de costas largas faz lembrar os gigantes de outros tempos... De outras histórias. Aos olhos dos outros é de pedra. Seguro e firme como um homem daquele porte deve ser. Uma rocha coberta de pele rija, seca, desgastada pelo pesar da vida, mas sem um único rasgão. Nada conseguiria rachar aquela pessoa, aquele coração.

A Esperança gosta de pássaros. Desde pequenina. Costumava ir dar migalhas de pão seco de jantares e almoços passados com o avô, aos passarinhos que iam regressando aos cachos de viagens por céus de aventura.
Eles fascinavam-na, desejava todas as noites poder ver com os olhos das rolas, sentir o vento deslizante percorrer o seu corpo em quanto riscava céus como um pardal. Queria essa liberdade, essa sensação de união com o mundo natural que lhe dava vida todos os dias. Queria conhecer, explorar terras e mares longe do terreno da quinta dos seus avós que já lhe enchiam os dias de tédio e cinzento. Queria provar as sementes do oriente, o pão da América do Sul... Queria o mundo à distância de um bater de asas vigoroso, sem medo. 
A Esperança gosta de pássaros mas não o diz a ninguém. O trilho que vai percorrendo, entre verdes e cores de laranja, é o mundo dela. O autocarro que a trouxe até ali é o mundo dela. Tudo é o mundo dela porque ela é o mundo dela. Vive fechada nas quatro paredes da sua cabeça, do seu coração. Tem jardins de ouro dentro de si, mil vezes mais bonitos que aquele que atravessa agora, mas não o mostra a ninguém, não o mostra nem ao Grande. O seu Grande. Esta a ir ter com ele agora.

 "Às seis no jardim, combinado?"

 Deixando para quem vier trechos de árvores e relva, começa a ver o Grande. Ainda faltam uns bons metros para chegar ao banco dos seus planos, mas ele salta-lhe logo à vista, qualquer pessoa o descobriria em qualquer lado, bastava procurarem a torre molengona, que rasga mares de cabeças, que logo o encontravam. Um farol de humanidade. 
Beijinhos e "olás" são deitados fora e ficam os dois sentados, num quadro, digno de destaque museológico. Sente-se no ar a expectativa, o desejo de gritar, de vomitar de uma assentada todas as palavras que já disseram, pensaram ou imaginaram pensar. Porque não fala ela com ele? Porque não fala ele com ela? Por agora a resposta não surge mas, mesmo assim, ele arrisca e pergunta: 

"estas a ver a margem de lá do lago?" 

Ela acena com a cabeça que sim e vira-se para ele como uma criança que houve um velhote a falar de tempos que já não o são. 

"Gosto de me sentar aqui e imaginar que do lado de lá fica o teu coração. Que só tenho de atravessar este lago para poder ouvir a música que toca quando fechas os olhos." 
O Grande era de rocha, mas de vento também. Passava despercebido por todos como um naco de carne empilhada, como uma Esfinge antiga e pesada. Mas a verdade é que o recheio daquela vida era de veludo fino, requintado. Escrevia poemas na parte de dentro da sua carapaça, pintava quadros com as cores que levava sempre no seu coração. O tempo tinha o feito para resistir, mas a vida tinha-lhe dado alma. Uma alma que só a ela dava a mostrar. Só ela tinha direito de a ver. Ele era para ela, o verdadeiro ele.

"se ao menos fosse assim fosse assim tão fácil..." saiu por entre os lábios gretados do Grande.

Ela estava perplexa... Não sabia o que dizer, como reagir. Sempre viu nele uma diferença quente, aconchegante, mas nunca a tinha procurado. Nunca tinha dado a mão para que ele a pudesse puxar um bocadinho mais para dentro da vida que nele existia. Passaram-se dias, meses, desde que se tinham conhecido, naquele mesmo jardim, numa manhã de Inverno, mas nunca tinha sido capaz de o procurar, ele não se conseguiria esconder também, é fácil não o perder de vista... Mas desta vez foi diferente. O que ouviu mexeu com ela, tocou-a. Talvez fosse a voz desanimada, sem abrigo do Grande naquele fim de tarde. Talvez fosse do lago que criava dois céus, um em cima e outro em baixo. Mas dessa vez foi diferente, dessa vez viu que o mundo que tinha criado por si, onde tinha feito casa, onde tinha raízes, afastava-a das planícies do norte de África, dos vales da América do Norte. As asas da sua vida estavam coladas aos sonhos que guardava para si e nunca tinha conseguido levantar voo, deslizar. Sentiu-se profundamente triste mas algo mexeu-se. No meio da enxurrada que corria dentro dela as mãos dele, ainda coladas ao seu portentoso queixo, chamaram o seu olhar. As mãos mais delicadas que tinha visto. Um monstro com mãos de anjo, mãos de pianista. Dedos finos, suaves, numa mão gasta mas com ternura por dar. Viu nas palmas das mãos do Grande um céu azul, bafejado de uma brisa ligeira, aromática e temperada. Por segundos pensou nos seus pássaros. Na liberdade que a fazia glorificá-los, na vida que queria ter mas com que apenas sonhava. Levantou-se. Começava-se a sentir o vento. De fronte dele, estendeu as suas mãos em busca das dele, que se encontraram. Fechou por um segundo os olhos e puxou-o do seu assento. Estavam em pé agora um a frente do outro. De olhos e mãos dadas.

"Anda, vamos passear." 

E em direcção ao sul começaram a andar, com o nome dela a envolve-los enquanto um bando de andorinhas lhes protegia, lá do alto, os campos que iriam atravessar.

Diogo Lopes

domingo, 23 de junho de 2013

Nacionalismo Bom.



Estamos numa sala escura, nublada. Paredes de estantes forram o nosso redor, esta divisão melancólica e acolhedora. Temos livros de lombadas gastas mas de qualidade superior; o melhor cabedal, cozido com a melhor linha e ilustrado com os melhores pigmentos. Temos fotografias de paisagens distantes, de cidades grandes, monocromáticas e vazias, de praias invernosas com céus carregados. Temos música: discos, cassetes, vinís afogados por vozes profundas que cantam solidão e amor, vozes que já cá não estão mas que continuamos a ouvir como se estivessem. Agora estão expectantes, maravilhadas, cheias: o palco não é delas hoje. 
Palmilhamos um soalho vincado por um sem fim de caminhares sonhadores, lunares, onde uma secretária portentosa, de mogno cristalino completa o cenário, juntamente com uma cadeira de cabedal de costas altas, protectoras. Senta-mo-nos, algo nos está a vergar. Algo que vem de todos os recantos deste nosso pequeno mundo: parece etéreo, omnipresente. Um som divino, cheio, embalador. Cordas que vibram em mãos de ouro, baquetas que transformam cabedal em bateres-de-coração fortes, pulsantes, e a voz… aquela voz. Árida de falsas verdades, grave, robusta e, acima de tudo, verdadeira. Embala os nossos corpos e mentes, cria esperanças e sara desilusões, desgostos. Uma voz que canta o que o coração não consegue dizer.
O ambiente cresce, os ritmos sobem de tom, os pelos da nuca também. Fechamos os olhos, nesta cadeira de cabedal frio, sentimos o cheiro da melancolia que se sente nos nossos ombros, nas nossas cabeças, e vemos o mundo à nossa volta girar. A tristeza vira alegria passando por saudade e desgosto. A depressão ganha asas e explode no ar com voos de confiança e orgulho. Basta deixarmos este som entrar, esta maravilhosa música, para vermos todas as cores do mundo e dos homens. Ouvimos Matt, Brice, Bryan, Aaron e Scott. Ouvimos letras que nos mostram mundos lindos. Ouvimos sons que, como agulhas, fazem tilintar todos os nervos do nosso corpo. Ouvimos amor, perda, solidão, intervenção, futuro e esperança. Ouvimos mundos que desejamos que sejam só nossos. Ouvimos The National.

Diogo Lopes

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Sempre esperei por ti.


Abre os olhos, devagar, deixando lentamente, a penumbra do nascer do sol dar vida às íris de cor verde que lhe dão o mundo. Que lhe dão ela. Esta a descansar ainda. Um anjo num nenúfar de linho branco, engelhado, impressão digital que revela o que se passou durante a noite. Na noite que durou mil noites. Mas ele não a olha logo, tem medo, medo de se aperceber de que tudo não passou de um sonho bom. Olha para o mogno pesado da cómoda que sustem um velho espelho, testemunha do verdadeiro eu que ele guarda dentro de si e que mais ninguém conhece. Um eu que chora, que dança e que faz caretas. O seu olhar vai subindo pelas linhas de madeira que fazem o móvel até que se detém no velho espelho. Não reconhece o que vê. Os traços que limam o seu rosto mantém-se, já os conhece de cor, mas a sua expressão hieroglífica não se assemelha a nada do que já viu. Olha para o seu reflexo, sarapintado por autocolantes que nascem pela superfície gelada do espelho, e vê o que esperou anos por ver. Vê o que o fez enlouquecer de desespero e esperança ao mesmo tempo. Vê Amor. Recíproco, genuíno e sem fim. Quase que nem consegue aperceber se disso... Disso que leva pintado na cara. Disso que nasceu do universo de sensações que está ali, deitado, ao seu lado, a respirar pequenas lufadas de eternidade no seu pescoço. Ela. Tudo. 

Com a subtileza de quem engana linhas de chuva, fugindo pelos seus intervalos, destapa-se, lança com mil cuidados de veludo as pernas quentes para fora da cama e senta-se. Olha o espelho de novo. Vê o sol que cada vez cresce mais na sua cara. Sorri. Levanta-se e fica de pé. Com a cama nas suas costas. A olhar-se ao espelho. O velho espelho. A sua cara feliz. Respira fundo e vira-se para ela, a ternurenta ela. A razão pela qual o mundo gira esta ali, à sua frente, com uma gasta camisola de lã que ele usa inverno após inverno, entrelaçada nos lençóis de amor que tem para lhe dar. Cobririam o mundo inteiro, o universo. E ele sorri de novo. Sorri muito. Quer partir os maxilares só para poder sorrir ainda mais. Meu Deus, ela está mesmo ali. Ele quase que nem consegue acreditar, mas é verdade. Ela está mesmo ali, deitada, de olhos carinhosamente fechados, com um sorriso de favos de mel. Ela está ali.

Com passos de calma e cuidado, ele atravessa o mar de madeira que forra o chão até chegar ao porto seguro que observa com amor desde que acordou. É perfeita. Tudo nela o é. Desde os seus pés de desenho cuidado, que espreitam, sorrateiramente, pela ponta da manta de lã que a protege, até ao seu cabelo castanho, curto, luminoso, que leva em si os cheiros do paraíso. Tudo é a perfeição. E ele continua a caminhar até ela. 
 Chegou. Ao lado da cama onde o futuro feliz dormita. Tem-na exactamente à sua frente. O seu corpo e ela, em suspensão, preso num momento de total graciosidade. Um anjo a descansar. E o sorriso continua agarrado de unhas e dentes àquela cara cansada, gasta. Ele flecte as suas pernas junto à extremidade da cama que flutua diante de si, uma nuvem, e fecha os olhos. Fecha-os e quase que vê mais ainda. De repente, o entrelaçado de sensações, cheiros, imagens e sonhos que jorram daquele amanhecer, daquele novo dia, fazem-no estremecer por dentro. As suas costas são rasgadas, de cima a baixo, por um fulminante arrepio. Um arrepio diferente dos arrepios normais. Não vem do frio ou do medo, vem do fogo que o amor deixa como rasto quando vagueia por um corpo simples, adormecido, dormente. Um arrepio de recomeço. 

Assim, alimentado pela brisa de uma nova vida, de uma nova esperança, ele aproxima-se dela, do seu corpo, da sua cabeça, do seu brilho. Ainda agachado de encontro às aresta da cama, deixa o seu braço baloiçar pelo ar até cair em torno dela. Outro arrepio. Aproxima a sua cabeça da dela, e como se fosse dar um trago numa bebida quente, deixa os seus lábios tocarem na face quente daquela que o faz respirar. Beija-a. Com ternura e leveza. Com carinho, com cuidado, com tudo. E o mundo nasce de novo. Um big bang num quarto na penumbra. Pousa a sua face na dela, fecha os olhos com muita força, com a força de quem se quer agarrar a um futuro bom. Quer aquilo para sempre. Quer aquilo até ao fim. Tanto querer, tanto sentir, tanta coisa, tanta coisa que leva agora consigo, todo ele é combustão. Combustão de tudo de mau que levava, pesadamente, às costas. Tudo isso se incendeia e faz libertar o que usará para construir a vida que quer partilhar com ela. 
Encosta os seus lábios na orelha dela, deixa-os suspensos por entre a cortina de veludo que é o seu cabelo, e solta-se. "Sempre esperei por ti."

Diogo Lopes

Capela de negro.


A capela branca está vestida de preto. Por entre dourados ícones de carinho, de amizade, jaz o defunto do nosso futuro. Do meu amor. 
Lá fora está escuro, vento. Nenhuma luz se sente, nenhum perfume se cheira. Só vento e dor. Dor fria, em rajadas aguçadas. Portadas tremem, ferolhos chiam, mas nada oiço. Estou aqui, de joelhos, junto ao caixão do sonho que alimentei. Vergado.
Chegou ao fim o princípio que nunca o foi. Como um dia de primavera chegaste quente, acolhedora. Banhaste a minha alma com o calor de um sonho bom. Com esperança, com vida. Fizeste esquecer a dor, a solidão de quem procura vendado o futuro que nem conhece bem. Um glorioso amanhecer.
Mas a tarde começava a chegar e o sol foi, lentamente, mudando de sítio. Fui correndo atrás dos raios que nasciam de ti, fugindo da sombra do passado, da sombra do desespero de outros dias. Tudo em vão. 
Foste-te escondendo, roubando o que tinhas dado, e não quis acreditar. Corri contra o horizonte que fugia a cada paço; que te ia levando para outra altura, outro sítio. Corri, sem fôlego, corri, sem parar. Tirei forças de cada refego da minha pele, de cada música, de cada livro. Sem água nem comida corri. 
Foi encharcado de suor sofrido que me apercebi que o dia acabava. O teu sol tinha de iluminar outros mundos sortudos, outras terras mais ricas, mais férteis. 
O vento uivava agora nas folhas brilhantes das árvores que fechavam o tecto do meu percurso. Engolido pela natureza da vida continuava a correr. Todas as passadas como tiros, como facadas. Via o fim é deixava de perseguir e passava a fugir. Da sombra, do escuro, do castelo gelado onde vivem os escravos do amor. Ofegante, dorido, partido e seco via os contornos religiosos de uma capela nua de cor, de relevo. Estaria seguro aí? Ver-te-ia na candura de um altar singelo, ameno? 
Comecei a ganhar um alento novo, diferente. Alimentava-me agora, depois de léguas de gravilha ensanguentada, de uma réstia de esperança que brotava do edifício que se definia no escuro, aos poucos, à minha frente. Uma saída daquilo que me engolia. 
Chutei as portas com o vigor de mil soldados de ego ferido e vi uma capela branca pintada de preto.
Tinha chegado ao funeral daquilo que me tinha feito voltar a acreditar na realidade de uma felicidade partilhada. Cheguei e, de repente, deparei me com o que me perseguia. 
Engolido na tempestade de um amor desfeito, desmoronei aos pés do caixão de mogno que guardava os sorrisos, lágrimas e carícias que ficavam, a partir de agora, presos num futuro do passado; suspensos no ar que emana o novo amor e fechados nesse retângulo, nesse estojo cirúrgico com o qual me mutilei durante meses. 
Peça a peça tinha tirado do corpo etéreo do que virá aquilo que julgava vir a ter. Estava tudo ali, fechado, selado pelo destino que me recusou este desfecho.
Velava na dor a felicidade que tinha falecido.
Os meus joelhos começavam a borbulhar no mármore frio que sustinha a minha carne. Só carne e ossos e pele. Não era um ser... Era carne, ossos e pele.
 As minhas lágrimas tinham formado uma poça que crescia. Estava a dissolver-me no vazio, no gelado. Seco de reações, de ar, fui me desfazendo, lentamente, aos pés do amor morto. Não me mexi. Nem um músculo. Queria desaparecer, tornar-me líquido e infiltrar- me por entre o solo que faz esquecer pessoas. Queria ser esquecido do mundo para que nem a minha memória pudesse sobreviver. Um patamar de morte absoluto, esmagador. Nem a memória do meu sofrimento poderia restar.
Fui escorrendo...
Em pouco tempo restava apenas um círculo líquido daquilo que havia sido um homem com o amor de universos. Tinha desaparecido do mundo como ele tinha desaparecido de mim. 
As portas abriam-se de novo, agora solenes e cerimónias. O vento entrava, violento, e a capela era sugada pelo tornado que tinha nascido lá fora. Em segundos tudo desapareceu. O caixão, as velas, o preto, as paredes, o tecto. Tudo voou. Tudo foi-se embora. Tudo menos um círculo de terra húmida, salgada. Dali não nasceria mais nada para sempre. Tudo desapareceu e nunca mais regressará. 

Diogo Lopes


terça-feira, 18 de junho de 2013

Memória.


Somos memória.
Dos dias que começam e acabam ficam as imagens que gravamos dentro de nós. Um café aconchegante, uma conversa quente, um sorriso doce. 
Enchemos livros com estes cristais de tempo que congelamos naquilo que entra pelos nossos dedos, se sente pelos nossos olhos. Gotas de chuva num rosto que a recebe por gosto e vontade. Lençóis de calor seguro que escondem pernas que dormem. 
Amontoam-se pilhas de volumes grossos escritos com a tinta do tempo... Alguns ensanguentados, outros brilhantes e intocáveis. Torres de vida, de momentos, vão fazendo nascer uma estrela, uma nebulosa que paira por entre músculos e veias que se vergam perante a sua presença. A alma. 
Como um poço sem fundo, este novelo de ar e névoa que faz casa em nós, vai devorando o dia-a-dia. Comendo cada beijo de noite estrelada, cada livro de lagrimas marcado. 
Durante o sopro que é estar aqui, a escrever este texto, a respirar o perfume desta almofada, tudo o que é, cai em nós, fica lá guardado para sempre. As pinceladas de tempo que passa vão colorindo aquilo que se esconde no canto de uma boca que sorri, no centro de uns olhos que choram. A alma.
Somos memória porque ela é a alma.
O que deuses disputam e músicas cantam está entre nós. Só sobrevive nas nossas conversas, nos nossos abraços. 
A vida dura até o corpo deixar de o fazer, mas como profetas dizem e Messias rectificam a alma sobrevive. Não passa de um desenho feito pelo homem que vive, sente, pensa e faz. Só é imortal se a tornamos única, se ficar para sempre na boca de gerações e gerações de filhos e netos. A alma imortal está nas marcas que deixámos, pelos trilhos percorridos durante o trocar de sopros que é a vida. Está no coração daqueles que tocamos, na vida daqueles que ajudamos a criar. Isso é o paraíso. O coração dos que ficam para nós enterrar. Enquanto permanecermos na memória dos que em nós viram algo alguma vez, podemos dormir com a certeza de que todos os dias veremos o sol nascer, porque aí a vida será eterna. Na memória. A nossa na dos outros.

Diogo Lopes

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Enganos à chuva.


Embalado por água pisada, entro no sono que me dá enchimento. Fecho os olhos, deixo a minha cadeira descair e sinto o mundo a levantar-se dos meus ombros. Embrulhado numa nuvem fresca de água, som e descontracção divina encontro o meu lugar. Crónico. Casa. Tanto me tento integrar para quê? Tenho o que preciso em mim. Neste carro de vidros riscados por gotas de chuva que brincam às corridas. Com esta brisa a afagar a minha cara, com estas mãos de ar que sabe bem, com este dedilhar, teclar, que vai completando os buracos que exibo a mim próprio, por dentro.

“Queria dar-te a mão.”

Afinal estou só triste, com frio, num carro molhado pela chuva que encharcou o meu cabelo. 

Diogo Lopes

Praia.





Sente-se no ar a névoa de um dia bem passado. Um sol envergonhado prega-nos partidas escondendo-se, de quando em quando, atrás das nuvens que enquadram o céu que sobrevoo-a esta praia. O mar vai-se desdobrando à nossa frente como a toalha de linho branco que a minha mãe desenterrava nos dias de festa. Uma toalha linda, brilhante, suave, tal e qual como esta água que salpica este nosso momento. Mágico. A areia descansa. Gasta. Cansada de suportar pés, mãos e tudo mais que país de família levam e trazem em bagageiras poeirentas e submissas.  A areia. O mar. O céu. O vento. Tu, eu, e este dia que não quero que acabe mais. Encosta-te a mim e vamos completar os livros que deixámos por acabar. 

Diogo Lopes

Morri.


Hoje foi o último dia da minha vida. Morri. Cheguei ao fim. Deixo a minha carne para trás, deixo as minhas coisas. No último suspiro que sai de mim, deixo tudo isso para trás. O meu vento espalha aquilo que não vai comigo, aquilo que fica do que passa. Choro. A dor do desaparecer assalta quem me quer bem e não tem pudor em o fazer. Vou viajando, flutuando pela minha galeria de memórias que me faz recordar, com saudades, com raiva. A colecção fechou, não pintei mais nenhum quadro com as cores que a vida e o destino juntos fazem surgir na paleta que levei em mim. Acho que a usei bem. Equilibrei os escuros com os claros, aperfeiçoei cada retrato, cada paisagem, não deixei nenhum sombreado por retocar. Sei que vivi comigo, com o que acredito. Vivi com a paixão de quem sente até sentir deixar de ser algo e se tornar vácuo. Ri e fiz rir, fui feliz e dei felicidade. Sempre quis sufocar os meus com felicidade. Amei, amei muito, muito mesmo. Amei mais do que todo o ar que me tocou. Soube tão bem amar. No amar bom e no amar mau, percori as cores mais vivas do arco-íris. É assustador o tamanho que essas quatro letras assumem ao longo da linha que é a nossa carne. É tudo e não é nada ao mesmo tempo. A coroa mais brilhante e a peste mais venenosa. Mas de uma forma ou outra dá-nos luz. Dá-nos sol numa tarde fresca de Inverno, dá-nos uma brisa no calor vulcânico de Agosto. Dá-nos todas aquelas pequenas coisas que enchem poemas e livros. Manhãs de verão, o calor de um abraço terno, uma pequenina mão em volta de um dedo gasto. Amar é isto. É isto porque isto só se vê quando o nosso corpo se forra de calor, de arrepios, de ondas de choque que nos alimentam o espírito. Só sabemos o que coisas deste género são, depois de termos esculpido corações que pomos no bolso e lá ficam para sempre. Só se sente se se amar. Só se vive se se amar.
Já não sinto agora. Estou morto. Mas relembro o que senti. Relembro agora, nesta esfera transparente e luminosa onde me encontro a escrever estas palavras. Morto. Sei que outros, que amam, o relembram também. Isso ameniza a dor. Mas é isso que lhes deixo, que deixo a todos que se cruzaram comigo ao longo das estradas que palmilhei. Isso é a minha prenda para vós. Aquilo que fui. Um corpo de amor. Carne com amor dentro. Espero que vos preencha, que vos ensine alguma coisa. Que vos faça saber o que a minha vida foi e que com isso possam encontrar rumo na vossa. Só quero isso para vocês: felicidade num rumo que vos caiba que nem uma luva. Feita à medida. Seja na forma de um parceiro, seja na forma de um filho, seja na forma de um qualquer coisa. Mas que seja. Seja muito. Seja ao infinito. Se for saberei que não passei de fugida pela realidade dos continentes, dos países, das cidades e ruas. Saberei que o meu amor não foi em vão. Foi para vocês. 
Tenho de ir agora, a eternidade está a chamar-me. Vou vos vendo por aí. No sorriso dos vossos filhos. Na primeira folha que cai no outono. No calor de uma manta pesada. Eu estarei aí.

Diogo Lopes

Escuro.


Longe vão os tempos do sono tranquilo. O dormir, o descansar, o fim do mundo no fim do dia. À noite. No escuro que tornei sagrado desde sempre. O meu abrigo, a minha paz. À distância de um interruptor, de um estore. Fecha se a janela que expõem a rua lá fora. Está escuro e está laranja. A cor dos candeeiros que iluminam o caminho dos que são como eu. Dos que se encontram quando sol cai e a lua se levanta. Dos que se vêem melhor quando não se vê mais nada sem ser a escuridão. Não assusta, acalma, sossega. Mas não me tenho sentido calmo, não me tenho sentido sossegado. Tenho-me sentido assustado. O meu recanto virou suplício. Agora, quando fecho os olhos, no chão frio do quarto onde me estendo, vulnerável, aberto, deixei de ver negro. Deixei de ver o todo que antes me envolvia como uma manta quente envolve um querido filho. Protegido. Vejo te apenas a ti e ao medo que tu me trazes. O reverso da moeda dos apaixonados. Não és tu que me assustas. Como poderiam todos os amores de todos os mundos de todos os universos alguma vez me assustar. É o não te ter. É o tornar me órfão da ideia que tenho para nós. Nós não existe mas em mim parece existir desde o início de tudo. Desde o início dos átomos, desde o início das células, dos tecidos, dos órgãos, dos humanos. Tudo. Desde o início. E temo o fim. Temo o nosso mais do que o meu. Imaginar que tudo o que imaginei pode não passar de imaginação é ser esventrado de mim mesmo. É ver a foice da morte em si abrir me de alto a baixo e tirar-me tudo o que tenho de bom. Tudo o que me ilumina a partir de dentro. Deixar escorrer para o chão tudo isso e ver me apenas com o ressentimento egoísta, com a tristeza, com a raiva infantil de quem tudo quis e tudo perdeu. Passar a ser um cadáver que anda, fala e pensa mas que só ficou com doença, morte e tristeza. É ver-me engolido pelo negro vazio, não pelo meu negro cheio do qual perdi o rasto desde que fiquei sozinho com o teu amor nos meus braços.
Revolta me ser assim sabes? Sei que estou a olhar só para mim. Que estou cego pela branca pele que circunda o meu umbigo. Mas não consigo largar isto. Não consigo ser indiferente em relação ao que quase nem existe. É ridículo. Que culpa tens tu de eu te querer assim tanto. Que culpa tens tu que eu só veja o teu nome, que eu só veja a tua forma, o teu rosto. Nenhuma... É ridículo. Isto é ridículo. Eu sou ridículo. A minha cabeça e ridícula. Mas não consigo deixar de o ser. Eu tento, Deus, os homens, os animais, as pedras, a natureza sabe que eu tento... Mas não consigo. Tudo me faz correr de volta a ti. De volta ao que me faz querer ser velho e viver muitos anos, ter muitos filhos, ter muitos netos. Tu. O estrondoso tu. Sei que vou continuar assim até à espada cair. Até a sua lâmina de aço frio se vergar sobre o meu pescoço e partir, de uma assentada, todos os ossos do meu corpo e depois partir todas as metades dos ossos do meu corpo. Até cortar toda a minha pele, todos os meus músculos, tendões e veias. Até eu ouvir-te dizer me que não. Morro nesse dia. Morro, ressuscito e morro de novo. Uma morte a dobrar, a triplicar. Um sofrimento de gritos perdidos e sem fim. Uma dor que vem pura, concentrada. Cristalina de tão virgem que é. A partir desse dia, talvez, depois de muitos, muitos anos, me possa vir a reencontrar com a tal escuridão reconfortante de outros tempos. A mesma escuridão para um eu diferente. Mas trocaria a escuridão mais escura, o conforto mais confortável, a tranquilidade mais tranquila se pudesse um dia, sentir o teu cheiro apertado contra o meu peito. Na fortaleza dos meus braços. No eterno do meu beijo.

Diogo Lopes

Estivemos aqui.



Na noite, no escuro, no fundo de mim deito-me e deixo a simplicidade da vida cair pelo meu corpo. Gotas de memória, de emoção e de desejos por realizar vão encharcando as roupas com que escondo as marcas que a vida foi deixando. Que escolhi guardar. Neste corpo de amor, de entrega e de procura. Por ti, por mim, por algo que nem sei bem o que é. Mas procuro. Em tudo o que faço, tudo o que defendo ou ataco. Reflexos do espelho que todos somos. Reflexos dos outros que nos tornam nós próprios.

Indo rumo ao cantinho de luz que acredito estar reservado para mim tento colher aquilo que tocamos mas não nos cabe nas mãos, que cheiramos mas não nos entra pelo nariz. Raios de sol por entre folhas que crescem à nossa volta, indomáveis, flutuantes no cheiro que pinhais quentes de verão libertam. Tudo isso recolho, limpo e decoro, expondo como provas de uma vida que existe, que não se prende na limitação da carne que sempre enfraquece. A alma não, o espírito não. Esses duram, em nós e, mais tarde, na memória daqueles que nós tocámos. Essa é a prova frágil mas imponente de quem palmilhou calçadas, trilhos e praias sem se prender apenas na superfície ténue do imediato. São a prova de que navegamos embalados pelo soprar do amor, da amizade, da verdade. São a prova de que tiramos da música, das palavras, das paisagens e dos desamores aquilo que nos faz quem somos. Corpos e almas que precisam mais de sentir do que de respirar. São a prova de que estivemos aqui. 

Diogo Lopes