segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Não custa assim tanto.

Puxaste o meu braço e amarraste-o no teu pescoço. A tua mão colava-se à minha cintura. O meu coração vertia cor. Os teus olhos luziam. A tua boca dizia-me que estavas feliz sem nunca desmanchar o sorriso que a enfeitava. Vento roçava pelas brechas que os nossos dois corpos juntos deixavam abertas. Caminhávamos de noite, o dia tinha já fugido. Estávamos bem. Lembro-me de cada luz, de cada cor. De cor. 
Numa vez que já passou, as minhas mãos faziam-te inteira. Não deixavam espaços por fechar, buracos por encher. Numa vez que já passou, memórias como a que narrei não eram memórias, eram realidade. Um tempo bom que passámos, um e o outro, com um e o outro ao pescoço, presos num fio de prata brilhante.
Vieste numa aberta inesperada, com música no coração e palavras doces que me faziam dançar ao espelho, a sorrir, de peito aberto. Dançava o bom tempo apesar da chuva miudinha e do vento teimoso que me fechava o casaco e me punha as mãos nos bolsos. Dançavas também na minha cabeça e no ar que entrava e saía de mim. Baloiçavas-te por entre inspirações e expirações. Dançavas sem parar: quando dormia, quando bebia, quando comia, quando corria. Bebia, comia, corria. Tudo no Pretérito Imperfeito. Tudo no passado, tudo na memória que agora me deixa acordado e com a boca seca, na madrugada de um dia que até foi bom. Até foi: nem pensei que pudesse ser. 

São seis da madrugada, ainda estou acordado, a ouvir a calma que procuro mas que teima em me fugir. Estou agitado, não consigo dormir, não consigo sequer respirar como deve de ser. Sou arqueólogo, agora. Esgravato as ruínas que deixámos um no outro… pelo menos em mim elas estão bem presentes, cor de barro sujo e com algum pó que já me faz comichões no nariz. Vejo-me a percorrer casas antigas, grandes praças, escolas, teatros, cantinas, tudo em ruinas. Ruínas que não são pesarosas, não são agoniantes: são melancólicas. Sou melancólico, agora, enquanto o sol vai nascendo aos poucos através dos furos do estore. Passeio por tudo isto, de mãos nos bolsos e com o casaco fechado até acima. Está frio aqui. Não está vento, nada se mexe, mas está frio. O frio do desconforto, o frio do cansaço, do desalento. Vejo a vida que já passou por estes corredores, por estas ruas, e fico triste. Não é um triste sôfrego, muito menos desesperante. É um triste de desconsolo. Vejo tudo isto e não consigo deixar de sentir um ralo a vazar parte do interior que me dá forma. Não sei o que chamar a isto, nem sei se consigo descrever muito bem, mas talvez seja o mesmo que se sente quando vemos uma fotografia antiga, com alguém que hoje já não é, e bate-nos de frente a saudade pegajosa daquela altura específica, daquela pessoa que agora é só aquilo que seguramos na mão: uma fotografia antiga. Guardo-te ai. Numa polaroid amarelada com o rebordo branco mascarrado com dedadas de chocolate. Um sorriso feliz e uns olhos que o confirmam. Emoldurado e colocado com amor na lareira que agora já só tem brasas em cuidado paliativo. 

À noite, volto para casa. Nas mãos o volante, nos ouvidos a música, na cara o fresco que vem da janela e em todo o lado saudade de ti. À noite, principalmente. Quando o sol se esconde puxa do outro lado do mundo uma sensação qualquer de vazio espumoso. Leve, mas denso. Lembro-me de ti, pergunto-me se tu também, imagino o que fazes, adivinho o que sentes. Dono e senhor de coisa nenhuma, para além desta neblina pegajosa que cai quando recordo, vagueio pelo escuro, só com as luzes da estrada a iluminar o caminho que se desdobra. Dantes a noite sabia bem, agora já nem tanto. 

Queria estar contigo agora. Ver-te. Ouvir a tua voz. Qualquer coisa… Será que quero mesmo?
Estou a esquecer-te aos bocados: como quando se deixa um vício quotidiano, procuro tapar-te dos meus sentidos com risos tontos, guitarras aos berros ou passeios solarengos. Talvez seja por isso que à noite custa mais… Quando tudo esfrega os olhos e vai dormir, só eu é que ainda fico desperto. Vou vomitando para aqui coisas que moldo para serem bonitas mas que na verdade são tudo menos isso. Quer dizer, mais ou menos… há qualquer coisa de atraente na melancolia. Mas regra geral, não, não é bonito estar assim. Ficamos mais carrancudos, os braços pingam do tronco, as costas curvam-se para a frente, os olhos ficam mais fechados. Até a voz fica mais grossa, menos genuína. Faz parte. É a vida. Teve de ser.
Outra vez. Filho da puta do escuro que não me deixa em paz. 

De novo a noite trouxe-te para me assombrar, para gozar com a minha cara. Sabe que sinto a tua falta e que por causa disso, o que menos quero é sequer respirar o mesmo ar que tu, mas mesmo assim continua a fazer isto. Passo todo o dia a tentar esvair tudo de ti que ainda de mim não saiu. Ignoro as fotografias, distraio-me com o quotidiano, invento malabarismos e números de circo para te chutar de mim para fora. Vou conseguindo…  menos à noite. À noite o coração encolhe e tudo fica mais aguçado, mais pontiagudo.
 Hoje vi uma fotografia e um armazém de cristaleiras cheias de porcelana, cristal e vidro explodiu, pegou fogo e depois voou num tornado. Congelei, só por uns segundos. Meu deus, que segundos. Como reflexo apressei-me a esconder tudo, a desligar tudo, mas já ia tarde. Afetaste-me. Ainda me afetas. Não posso nem muito menos consigo negar. É normal, acho. Por muito que me quis tentar convencer que não duraria mais que um sopro a voltar ao normal, a voltar a como tudo estava antes de saber o teu nome, estava redondamente enganado. Está a custar.

Questiono-me se pensas nisto, se o sol e o mar não te cegam o coração que, acho, ainda é capaz de saber a cor dos meus olhos, o cheiro do meu cabelo. Pensas na decisão que tomaste? Pensas em como estarei a lidar com isto? Pensas no bolo de chocolate que comemos à frente da cidade inteira? Pensas no sol que encheu a minha varanda enquanto almoçávamos? Pensas na altura em que me disseste “Não custa assim tanto” e nos beijamos? Eu penso. Várias vezes. Neste preciso momento, sem parar. Um bocado irónico, isto. Não há dúvida que penso mesmo demais. Mas não o vou esconder, sou assim. Sei das arestas ainda rugosas e dos cantos mal definidos, mas tenho muito orgulho no que sou e por isso não tenho medo de dizer que sou assim. Mas não deixo de estar triste. Tenho de ir dormir.

A música toca. De corda em corda, as notas que a minha respiração alterada costumava fazer ganham sentido, ganham ordem, calma. Oiço a memória das tardes na tua casa, das manhãs na tua cama. Vejo tudo como se estivesse a minha frente: a parede com os postais pendurados, o Chico Buarque, a minha mochila ao lado da cama... No avião que agora me leva para casa, fecho os olhos e vejo a tua cara a namorar com as almofadas que seguraram o nosso sono. Vejo o teu cabelo emaranhado nos nossos sorrisos, nas gargalhadas. Vejo o passado. Só isso. Passado.

O tempo que passou desde a última vez que te vi foi amigo da saudade, do arrependimento. Lembrei me de ti, quis ligar te, quis ir ter contigo, pedir te para tentar outra vez. Quis a tua mão, quis o teu abraço e o teu calor também. Quis te, mais uma vez. Uma vez que quis que pudesse ser para sempre. Quis. Só isso. Pelo menos agora, que converso comigo mesmo nestas palavras, nestas lembranças.

Acho que já me passaste. A constipação que apanhei, na noite em que o teu vestido laranja perdeu cor quando me fui, já está a ir embora. Já respiro normalmente é sem nada entupido, já tenho mais energia e não espirro quase nada. A polaroid de há uns tempos atrás já está a ganhar po por entre a papelada que guardo na gaveta. Continuo a ver tudo, a sentir tudo, a cheirar tudo, mas as coisas ficaram mais baças, menos brilhantes. Aceitei o desfecho que emoldurou os dias que passamos e estou em paz. Existiram, esses dias, e isso por si só já quer dizer felicidade. Exististe, em mim, e isso faz me feliz. Espero que também estejas.
Ontem voltei a ouvir a tua voz. Tremi um bocadinho enquanto te procurava do outro lado da linha. Fumei um cigarro nervoso enquanto esperava perceber o que ia acontecer depois de te dizer "ola". Falamos. Fiquei contente. Depois peguei na mochila e sai de casa: já não havia pão e era melhor ir já comprar porque mais tarde a padaria fechava.


terça-feira, 15 de abril de 2014

Imagina que isto é uma carta a sério.


Começo a escrever sem saber sobre o quê. Sem saber o que se passa. Sem saber o que vai acontecer.
Ainda nem as horas decoraram o meu nome e já te vejo de longe outra vez. Reencontro-me com a azia que, não há muito tempo, me apresentou ao que era sentir a tua falta. A azia.

Sinto que a cada quilómetro, a cada moradia cinzenta e molhada que passa, o céu fica mais carregado. Sinto o meu estômago que se contorce, os meus olhos que tremem. Sinto as minhas mãos que se esmeram para conseguir segurar esta caneta.

Sou de palha, agora. Palha molhada. Paro, vidrado, procurando com os olhos o nada que em mim transborda. Imóvel, congelado, ocupado pelo cancro da dúvida, violado, pilhado, entrego-me neste profundo desconsolo que me faz ter frio. Choro eu e chora o céu comigo. Indiferente aos outros passageiros desta carruagem, choro a distância, a saudade e o fim. 

Vi voar a minha contenção quando estavas encostada à parede, ao meu lado, a sorrir, a fazer-me sorrir. Naquele restaurante onde jantámos, a noite lá de fora não foi escura. Naquele restaurante escrevi na casa de banho o que não queria que acontecesse. Naquele restaurante comecei a sentir as pernas a tremer. Foi naquele restaurante que das minhas costelas se soltaram todas as palavras, todo o calor, todas os beijos e carícias que tentei guardar, camuflar no meio de um à vontade que me esforço por transmitir. Mas não consegui. 

O problema de irmos é saber que temos de voltar. Eu fiz por não saber, fiz por não acreditar que fosse acontecer. Aconteceu. Aconteceu e agora estou a chegar a casa, estou a chegar a casa e não sei onde para o meu juízo. Onde ficou a minha cabeça, onde estão as minhas chaves, onde pousei a minha calma, onde guardei a carteira, onde deixei parte de mim.  Quero não saber mas sei: As chaves estão no bolso de fora da mochila, a carteira no bolso do casaco onde a deixo sempre e parte de mim… parte de mim ficou contigo. Nas ruas por onde caminhamos, no guarda-chuva que, atabalhoado, fui levando para não te molhares, nas recordações que te deixei, no abraço que te dei. Parte de mim. Aí.


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Já passaram quase dois dias desde aquilo que escrevi. Estou mais calmo, consegui recuperar o folego que me fugiu de repente, assim que atravessei a porta daquele comboio. Um folego que não te deixou por um segundo. Foi atrás de ti, escondeu-se num dos bolsos da tua mochila, e lá deve estar ainda. O folego que fui recuperando não é o mesmo que ficou contigo. É um novo, mais fraco, mais baço, que não conhece o teu cheiro, que não tocou a tua pele. Um folego mais triste, mas um folgo.

Vou-me lembrando de ti… quando chove e sinto o cabelo húmido; quando o sol puxa o calor e as árvores ficam mais brilhantes e com mais ramos. Vou-me lembrando de ti quando estou deitado na cama, a desejar ter mais braços para afastar a vontade de te ver de novo, a vontade de voltar para te ver de novo. Vou-me lembrando de ti durante o dia: quando, ao almoço, tirei as ervilhas do arroz. Quando falo da maneira que te fazia rir, quando tento não parecer fraco, vidrado, sozinho, ridículo. 

Continuo a escrever mas já sei sobre o quê. Por esta altura já sabes também. Mas é só mesmo isso que sei. Continuo sem saber o que acontece agora, continuo sem saber se não digo que não sei por saber e não querer. Vou continuando… de qualquer maneira. Sem ti, a desejar que assim não fosse, mas sem ti. 

Por agora não vou escrever mais: vou deixar que se houver mais por dizer que se diga sem notar. Fico por aqui e deixo-te um beijo. Está escrito mas é como se fosse real. Não está aí agora enquanto seguras neste papel, mas é como se estivesse, pronto para que quando levantes a cabeça da folha, te mostre que sinto a tua falta.

Diogo Lopes



sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Última Música


E se esta fosse a nossa última música? Presos no silêncio do abismo que cresce entre nós, o sol perde força, a noite fica mais triste.

E se esta for a nossa última música? O que faremos? O que será das nossas, fotografias, o que será do tempo.

Desgastados como um vinil antigo, encontramo-nos na solidão que é esta onde nos deitamos. Nem a chuva que lá fora cai, banda sonora do amor que no passado consumamos, chega para apagar a dor que passámos a levar às costas. A dor das feridas abertas, a dor dos corações que murcharam e que agora só guardam pó.

Lembro-me do teu corpo como se fosse meu. Lembro-me como quando era meu. Meu o teu e teu o meu. Lembro-me do calor do teu cabelo, do cheiro inocente da tua pele, dos teus olhos: luas cheias que se refletiam no mar escuro que eu era. Tudo perdia o rumo e morria na negra maré que levava o meu nome. Tu não tiveste medo: olhaste em frente e zarpaste na aventura que seria viver comigo no teu peito. Não tiveste medo e guiaste o teu barco de amor rumo a um futuro cego. Sem ventos nem instrumentos. Foste por paixão. E eu? Eu? Cego pelo ardor de uma alma vaza, não vi que só querias dar-me a mão. Lancei os piores tufões, as ondas mais violentas contra ti na irracional esperança de que isso me fosse proteger. Que isso fosse afastar a dor maior que nos sonhos me fazia chorar. Mas não desististe. Continuaste, mesmo quando vento não havia, mesmo quando o frio gretava a tua força. Não desististe. Eu cedi. Fui vendo que o teu sol aquecia, não queimava. Que vinhas trazer vida ao mar de esperanças mortas que eu era. Finalmente chegavas ao bom porto por que lutaste.

A vida foi boa nesses tempos. Fizeste nascer ilhas, que cresceram para penínsulas, para, continentes inteiros. O teu carinho foi fazendo renascer a ideia de recomeço. Fui florescendo na ideia de te ter a meu lado. Mas a vida são enganos. São truques de magia, com alçapões e espelhos que nos iludem, e assim, a menos de um abracadabra de distância, ia nascendo em ti a dúvida de mim. O alento, agora mais cansado, que rodopiava vindo de ti, foi estagnando. Aos poucos, a minha mão deixava de conseguir confortar a tua. O meu beijo passava a saber a folhas secas, esquecidas, mortas. Aos poucos ia-me revelando aos teus olhos não como destino mas como escala. Como uma casa abandonada, os nossos dias passaram a perder cor e desmancharem-se.

Se esta for a nossa última música, o que diremos um ao outro?

Não sei. Aprendi connosco que nada é de pedra, nada é real. Mas se esta for a nossa última música, não vou dizer nada. Vou apertar-te no meu abraço uma última vez. Sentir o teu cheiro a jasmim. Agarrar a tua mão com a delicadeza de quem nunca viu outra igual. Deslizar pelo som da guitarra, quase a levitar, calando todo e qualquer pensamento, ignorando todo e qualquer presságio, na certeza de que aquele momento será o ponto a partir do qual o tempo morrerá para mim.

Com o coração a sugar o ar do meu corpo, vou deixar que a música segure este momento nas suas mãos e o guarde junto dos seus pertences mais valiosos.

Se esta for a nossa última música, que todos os instrumentos do mundo se partam, que todas as pautas se queimem, porque nada voltará ao que era.


Por: Diogo Lopes

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

-Sem nome-

Esperança é o que a tua voz me dá.
No calabouço do quotidiano, são as 
Palavras que me cantas ao ouvido
que fazem o meu coração aquecer.

Um abraço de amor;
Um leito partilhado com ela que tanto me ama.
Dás-me tudo isso e ainda agradeces.
Dás-me tudo isso e nem o sabes.

Quando o destino der o seu último sorriso
E a vida for inteira
Vou dizer que assim o é porque tu existes. 
Existes.


Por Diogo Lopes

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Bicicleta



Uma mão firme, jovem, prende com força o rumo do final da tarde. Uns pés vestidos de cabedal, atado para não deixar que o vento o leve, dançam suspensos sobre o chão que se desdobra. Um tronco, curvado e já meio dorido, vê  os seus contornos abraçados pelo tecido da camisa que esvoaça no fundo das costas. Uma boca, uns olhos, um nariz espelham o coração. Um coração. Do qual não importa saber nada agora. Do qual se solta o orvalho que o frio da rotina costuma trazer.

No cenário que corre à minha volta vou balançando, meio atabalhoado, o meu peso para que nada disto que me envolve pare num trambolhão. Para não cair, para que estes minutos não travem de repente, não derrapem na minha inexperiência.

Neste processo quase mecânico, onde passos são trocados por tiras pretas que deslizam no chão, consigo encontrar um sorriso diferente, uma gargalhada nova, um ar fora do vulgar. Consigo sentir a magia daquilo que me rodeia. O encanto de uma rua mal alcatroada, o tilintar tosco da correia mal oleada.

Rasgando a avenida que desagua do rio, por pouco, não ganho penas e levanto voo. Quem me dera poder fechar os olhos e deixar o vento e a cidade abraçar o calor que enche agora o meu coração. O calor dos dias onde não tenho nada que me pese na alma. O calor do sol que me protege nos dias em que os ponteiros giram por alguém.

Ultrapasso o tédio, não paro por nenhum sinal que me tente travar. Desfaço curvas com a convicção de quem se guia pelo que o enche. Subo passeios, piso lombas e escondo-me dos carris.

Pelo caminho vejo as coisas mais bonitas que a cidade guarda, invejosa: o mar que se desenrola em céu; a cor dos azulejos que guardam o retrato de tudo o que seja santinho, paisagem ou amor-perfeito; a luz que invade cada frincha que risca o betão, a pedra, o vidro: ilumina o interior dos meus olhos e encandeia o tempo parado que enche o meu corpo.

Com o branco do mármore a competir com o branco que me cobre a pele vou abrandando: Já cheguei à praça onde o tem de ser me espera. Ainda em movimento, solto os pés que se libertam do seu ofício e aproveito os últimos metros de liberdade. Vejo um poste, deixo-me escorrer até o ter preso no meu punho dorido. Pés no chão. Num alçar de perna deixo para trás a bicicleta que pelo peito me puxa para fora.

Do bolso tiro uma chave pequenina. Teço um novelo de metal entre aquela máquina de tempos bons e o ferro frio da realidade que regressa. Tranco com firmeza o cadeado que levava na mochila.

Pé ante pé vou deixando infiltrar-se na paisagem a minha bicicleta preta que me trouxe até aqui. Que consegue arrancar a tristeza da cidade numa só passagem veloz.

Paro de repente: uma dúvida. Volto para trás, em passo acelerado. Com ela de novo à minha frente puxo pelo cadeado. Está mesmo fechado.

Retomo o meu caminho de peito leve: és demasiado importante para que alguém te possa tirar de mim.

Diogo Lopes


quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Um dia que foi noite.



Pó no alto e vozes alegres puxam a noite do seu esconderijo. Depois de quilómetros rodados e de músicas mal cantadas entramos na casa de campo que nos irá receber durante esta noite. Terras soltas e capim fazem o nosso coração saltitar ainda mais. A brisa fresca afasta desejos de mar mas chama por o copo que se vai querendo generoso. Tudo nos faz querer que coisas boas estão para vir: amigos, música e liberdade jorram por entre a seiva dos eucaliptos que nos abrigam, exalam da relva onde nos sentamos para viver. Despreocupados e com a vontade de viver. Todos sorrimos, mas eu sorrio mais ainda.

Para juntar às horas felizes onde troco risos e momentos bons entre os amigos, sei que lá, aí, aqui, estás tu. No meio das planícies arenosas que nascem entre luzes coloridas e roulottes. Estas tu. Quase não te conheço, quase parece inventado a origem das nossas palavras, mas começo a ver coisas boas à minha frente. Coisas boas de olhos claros e cabelo curto. Coisas boas que não sei de cor mas que reconheço como o próprio toque das minhas mãos.

Vejo-te ao fundo, leve mas com vontade de parecer pesada. Simples, querida. Vejo-te ao fundo e chamo por ti. Finalmente. Estas aqui e dou-te um abraço. Cheiras bem. A tua pele e macia. Trocamos palavras, olhares, e sinto-me bem, muito bem. Sinto-me como me fazes sentir. Bem. As músicas vão saindo disparadas, as luzes trespassam-me os olhos embaciados, salto, corro, danço, celebro cada fôlego extasiado que sai de mim. Não era o mesmo sem ti.

Dei-te a mão, dei-te o braço, dei-te o meu sorriso e o brilho dos meus olhos. Na noite que nos emoldurava quis-te dar o que pudesse. Beijos ternos, assanhados e carinhosos foram soltos por nós numa indiferença estoica para com o mundo. Quis que te perdesses nos meus braços com cada toque, com cada caricia que quis que sentisses. Ingénuo e contente fui aproveitando tudo o que o escuro podia dar aos maiores corações que podiam começar a abrir.

Começava a sentir no fundo da nuca o frio do fim da noite. Faltava um concerto e eu que não estava contigo. Tinha te na cabeça mas o meu corpo foi da música, foi dos companheiros com quem tanto já passei. Loucuras e brincadeiras iam explodindo entre nós mas nada que se compare com o que foi sentir o teu toque, no meio da multidão, a chamar por mim. Voltaste: como te queria naquela altura. Puxei-te para mim, entrelacei os meus braços em volta do teu corpo e deixei a minha cabeça assentar no teu ombro. Sustentava toda a minha realidade naquele momento, o teu ombro. Beijei-te o pescoço, cantei no teu ouvido, dançamos e soube, mesmo quando as luzes nos cegavam de êxtase, que era ali que tinha de estar. Era contigo que queria partilhar aquele momento. Só contigo. Gosto de ti.

A multidão dispersou, as luzes acalmaram, a música parou e continuei contigo ao pé de mim. Não me queria ir embora, não queria uma despedida. Mas não deu. Teve de ser. Confrontado com a fatalidade de te ter de deixar, resignei-me. Estavas cansada, bocejavas e o teu corpo delicado já pedia por descanso. Eu esqueci-me das dores nas costas, da enxaqueca e das pernas trôpegas porque não queria ir embora. Mas teve de ser.

Caminhamos a sorrir, de mão-dada e com histórias felizes a saírem das nossas bocas. Chegava o portão que me fecharia a porta da tua mão. Que me ia deixar mais pobre nessa noite. Tu com o meu casaco, eu com o calor de quem gosta de alguém. Tu abraçada a mim e eu a querer ter mais braços só para te apertar ainda mais contra o meu peito. Beijei-te como se fosse deixar de te ver para sempre. Quis selar a minha alma em ti com os meus lábios. Quis sentir a tua respiração a invadir o meu corpo e a contagiar-me ainda mais. Senti as tuas mãos na minha cintura a incendiar a minha pele. A gravar a quente a vontade que tenho de ti. Com calma as tuas mãos deslizaram até ao meu peito e foi o adeus. Beijinhos, fica bem. E assim desapareceste no meio da multidão cansada com o meu casaco e um pouco de mim.

Andamos e andamos e andamos no escuro onde as luzes dos carros davam nova vida ao pó que morava naquele sítio. Ia bem até. De vez em quando tinha de olhar para o acampamento que te guardava na esperança tola de te poder ver. Mas ia bem. A ressaca de ti ainda estava distante e embriagado sorria com pedaços teus ainda nos meus lábios, nas minhas mãos, no meu coração. O carro benzido pela neblina que ofuscava aquele descampado foi a nossa casa por umas horas. Como companheiros de aventuras já não nos era estranho passar uma noite desconfortável de corpo mas aquecida pela amizade. Fechei os olhos e o dia acabou mais uma vez.

Frio e boca seca deram-me os bons dias. Estava luz e nevoeiro. Não estavas tu. A tua ausência começava a moer a base da minha nuca como uma enxaqueca que desperta. Mas a vontade de levar seguros a casa os meus amigos, por uns segundos, consegui entreter-me enquanto o nascer do dia se desdobrava no para-brisas sujo. A chegada a casa foi tranquila. Comemos. Bebemos. Descansamos. Todos fecharam os olhos, eu fiquei para último porque algo me puxava os cabelos. Algo dizia que tinha de ir para o teu lado de novo. Esforcei-me para tirar isso das minhas pálpebras que se fecharam. De respiração leve e sono profundo pensei que estava a salvo. Engano. Nem em mim estava seguro da vontade de te voltar a ver. Entraste nos meus sonhos, intrépida e sem pedir autorização. Disseste que me querias também como eu te queria a ti. Devo ter sorrido de olhos fechados. De certeza.

Mais uma vez acordei, já com o sol bem alto. Os excessos do dia anterior partiam-me a força e a energia de me levantar, mas lá fui. Tudo pronto, tudo arranjado e sem nada para fazer. Inventei uma desculpa para sair e distrair-me da noite que tinha passado e me deixado embeiçado por ti. Mas nada funcionou. Por muitos prédios e muitas caras que visse era a tua que mais desejava ter entre as minhas mãos, pronta para um beijo doce como aqueles que já trocamos.

E estou aqui agora: sozinho, com as palavras e a música como minha companhia. Com a ressaca da tua ausência a esmagar a minha cabeça e o meu coração. Procuro consolo nas palavras que nascem dos meus dedos. Desejo que o tempo voe para estares de volta. Invento desculpas para a mensagem que ficou por responder. Desespero em pleno exagero com o medo de não estares no mesmo sitio que eu. Não me teres tão bem quanto te tenho a ti.

Não sei do futuro. Não confio no que a minha cabeça suja me diz. Sei que gosto de ti. Começa a nascer alguma coisa que o sono e o cansaço tornam hipérbole. Mas sei que não quero ser um caso, um que aconteceu e depois foi. Vejo coisas boas em ti que não vejo em mais ninguém. Acredito que histórias felizes podem nascer. Espero por ti então. No quarto escuro onde parti tudo o que dá luz espero por ti. Quero voltar a ver-te. Quero tentar contigo. Quero que a saudade vá com o vento e me traga de volta os tempos que já tivemos juntos. É pouco mas agora preciso de qualquer coisa. Qualquer coisa de ti. Qualquer coisa teu. Qualquer coisa que me traga a vontade de dormir porque eu não sei onde ela para.

Diogo Lopes  



quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Verde.




Montes e planícies correm ao meu lado  para tentarem fugir do dia que acaba. Não querem o escuro húmido da noite que vem. Não querem que dias passem. Eles já são tão pequenos... 

Mas o céu azul e laranja e amarelo e maravilhoso não lhes liga. Descobriu uma poça onde se tem deliciado a ver o reflexo das suas nuvens. Prolongam-se até serem só ar. A ver o reflexo do eterno que se esconde de todos menos a esta hora... Esta hora em que a noite acorda, rabugenta, e preenche o lugar que o Sol e os seus filhotes ocuparam de manha. É uma hora especial. É uma hora que nunca devia passar.

Diogo Lopes