sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Última Música


E se esta fosse a nossa última música? Presos no silêncio do abismo que cresce entre nós, o sol perde força, a noite fica mais triste.

E se esta for a nossa última música? O que faremos? O que será das nossas, fotografias, o que será do tempo.

Desgastados como um vinil antigo, encontramo-nos na solidão que é esta onde nos deitamos. Nem a chuva que lá fora cai, banda sonora do amor que no passado consumamos, chega para apagar a dor que passámos a levar às costas. A dor das feridas abertas, a dor dos corações que murcharam e que agora só guardam pó.

Lembro-me do teu corpo como se fosse meu. Lembro-me como quando era meu. Meu o teu e teu o meu. Lembro-me do calor do teu cabelo, do cheiro inocente da tua pele, dos teus olhos: luas cheias que se refletiam no mar escuro que eu era. Tudo perdia o rumo e morria na negra maré que levava o meu nome. Tu não tiveste medo: olhaste em frente e zarpaste na aventura que seria viver comigo no teu peito. Não tiveste medo e guiaste o teu barco de amor rumo a um futuro cego. Sem ventos nem instrumentos. Foste por paixão. E eu? Eu? Cego pelo ardor de uma alma vaza, não vi que só querias dar-me a mão. Lancei os piores tufões, as ondas mais violentas contra ti na irracional esperança de que isso me fosse proteger. Que isso fosse afastar a dor maior que nos sonhos me fazia chorar. Mas não desististe. Continuaste, mesmo quando vento não havia, mesmo quando o frio gretava a tua força. Não desististe. Eu cedi. Fui vendo que o teu sol aquecia, não queimava. Que vinhas trazer vida ao mar de esperanças mortas que eu era. Finalmente chegavas ao bom porto por que lutaste.

A vida foi boa nesses tempos. Fizeste nascer ilhas, que cresceram para penínsulas, para, continentes inteiros. O teu carinho foi fazendo renascer a ideia de recomeço. Fui florescendo na ideia de te ter a meu lado. Mas a vida são enganos. São truques de magia, com alçapões e espelhos que nos iludem, e assim, a menos de um abracadabra de distância, ia nascendo em ti a dúvida de mim. O alento, agora mais cansado, que rodopiava vindo de ti, foi estagnando. Aos poucos, a minha mão deixava de conseguir confortar a tua. O meu beijo passava a saber a folhas secas, esquecidas, mortas. Aos poucos ia-me revelando aos teus olhos não como destino mas como escala. Como uma casa abandonada, os nossos dias passaram a perder cor e desmancharem-se.

Se esta for a nossa última música, o que diremos um ao outro?

Não sei. Aprendi connosco que nada é de pedra, nada é real. Mas se esta for a nossa última música, não vou dizer nada. Vou apertar-te no meu abraço uma última vez. Sentir o teu cheiro a jasmim. Agarrar a tua mão com a delicadeza de quem nunca viu outra igual. Deslizar pelo som da guitarra, quase a levitar, calando todo e qualquer pensamento, ignorando todo e qualquer presságio, na certeza de que aquele momento será o ponto a partir do qual o tempo morrerá para mim.

Com o coração a sugar o ar do meu corpo, vou deixar que a música segure este momento nas suas mãos e o guarde junto dos seus pertences mais valiosos.

Se esta for a nossa última música, que todos os instrumentos do mundo se partam, que todas as pautas se queimem, porque nada voltará ao que era.


Por: Diogo Lopes

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