terça-feira, 15 de abril de 2014

Imagina que isto é uma carta a sério.


Começo a escrever sem saber sobre o quê. Sem saber o que se passa. Sem saber o que vai acontecer.
Ainda nem as horas decoraram o meu nome e já te vejo de longe outra vez. Reencontro-me com a azia que, não há muito tempo, me apresentou ao que era sentir a tua falta. A azia.

Sinto que a cada quilómetro, a cada moradia cinzenta e molhada que passa, o céu fica mais carregado. Sinto o meu estômago que se contorce, os meus olhos que tremem. Sinto as minhas mãos que se esmeram para conseguir segurar esta caneta.

Sou de palha, agora. Palha molhada. Paro, vidrado, procurando com os olhos o nada que em mim transborda. Imóvel, congelado, ocupado pelo cancro da dúvida, violado, pilhado, entrego-me neste profundo desconsolo que me faz ter frio. Choro eu e chora o céu comigo. Indiferente aos outros passageiros desta carruagem, choro a distância, a saudade e o fim. 

Vi voar a minha contenção quando estavas encostada à parede, ao meu lado, a sorrir, a fazer-me sorrir. Naquele restaurante onde jantámos, a noite lá de fora não foi escura. Naquele restaurante escrevi na casa de banho o que não queria que acontecesse. Naquele restaurante comecei a sentir as pernas a tremer. Foi naquele restaurante que das minhas costelas se soltaram todas as palavras, todo o calor, todas os beijos e carícias que tentei guardar, camuflar no meio de um à vontade que me esforço por transmitir. Mas não consegui. 

O problema de irmos é saber que temos de voltar. Eu fiz por não saber, fiz por não acreditar que fosse acontecer. Aconteceu. Aconteceu e agora estou a chegar a casa, estou a chegar a casa e não sei onde para o meu juízo. Onde ficou a minha cabeça, onde estão as minhas chaves, onde pousei a minha calma, onde guardei a carteira, onde deixei parte de mim.  Quero não saber mas sei: As chaves estão no bolso de fora da mochila, a carteira no bolso do casaco onde a deixo sempre e parte de mim… parte de mim ficou contigo. Nas ruas por onde caminhamos, no guarda-chuva que, atabalhoado, fui levando para não te molhares, nas recordações que te deixei, no abraço que te dei. Parte de mim. Aí.


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Já passaram quase dois dias desde aquilo que escrevi. Estou mais calmo, consegui recuperar o folego que me fugiu de repente, assim que atravessei a porta daquele comboio. Um folego que não te deixou por um segundo. Foi atrás de ti, escondeu-se num dos bolsos da tua mochila, e lá deve estar ainda. O folego que fui recuperando não é o mesmo que ficou contigo. É um novo, mais fraco, mais baço, que não conhece o teu cheiro, que não tocou a tua pele. Um folego mais triste, mas um folgo.

Vou-me lembrando de ti… quando chove e sinto o cabelo húmido; quando o sol puxa o calor e as árvores ficam mais brilhantes e com mais ramos. Vou-me lembrando de ti quando estou deitado na cama, a desejar ter mais braços para afastar a vontade de te ver de novo, a vontade de voltar para te ver de novo. Vou-me lembrando de ti durante o dia: quando, ao almoço, tirei as ervilhas do arroz. Quando falo da maneira que te fazia rir, quando tento não parecer fraco, vidrado, sozinho, ridículo. 

Continuo a escrever mas já sei sobre o quê. Por esta altura já sabes também. Mas é só mesmo isso que sei. Continuo sem saber o que acontece agora, continuo sem saber se não digo que não sei por saber e não querer. Vou continuando… de qualquer maneira. Sem ti, a desejar que assim não fosse, mas sem ti. 

Por agora não vou escrever mais: vou deixar que se houver mais por dizer que se diga sem notar. Fico por aqui e deixo-te um beijo. Está escrito mas é como se fosse real. Não está aí agora enquanto seguras neste papel, mas é como se estivesse, pronto para que quando levantes a cabeça da folha, te mostre que sinto a tua falta.

Diogo Lopes



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