segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Não custa assim tanto.

Puxaste o meu braço e amarraste-o no teu pescoço. A tua mão colava-se à minha cintura. O meu coração vertia cor. Os teus olhos luziam. A tua boca dizia-me que estavas feliz sem nunca desmanchar o sorriso que a enfeitava. Vento roçava pelas brechas que os nossos dois corpos juntos deixavam abertas. Caminhávamos de noite, o dia tinha já fugido. Estávamos bem. Lembro-me de cada luz, de cada cor. De cor. 
Numa vez que já passou, as minhas mãos faziam-te inteira. Não deixavam espaços por fechar, buracos por encher. Numa vez que já passou, memórias como a que narrei não eram memórias, eram realidade. Um tempo bom que passámos, um e o outro, com um e o outro ao pescoço, presos num fio de prata brilhante.
Vieste numa aberta inesperada, com música no coração e palavras doces que me faziam dançar ao espelho, a sorrir, de peito aberto. Dançava o bom tempo apesar da chuva miudinha e do vento teimoso que me fechava o casaco e me punha as mãos nos bolsos. Dançavas também na minha cabeça e no ar que entrava e saía de mim. Baloiçavas-te por entre inspirações e expirações. Dançavas sem parar: quando dormia, quando bebia, quando comia, quando corria. Bebia, comia, corria. Tudo no Pretérito Imperfeito. Tudo no passado, tudo na memória que agora me deixa acordado e com a boca seca, na madrugada de um dia que até foi bom. Até foi: nem pensei que pudesse ser. 

São seis da madrugada, ainda estou acordado, a ouvir a calma que procuro mas que teima em me fugir. Estou agitado, não consigo dormir, não consigo sequer respirar como deve de ser. Sou arqueólogo, agora. Esgravato as ruínas que deixámos um no outro… pelo menos em mim elas estão bem presentes, cor de barro sujo e com algum pó que já me faz comichões no nariz. Vejo-me a percorrer casas antigas, grandes praças, escolas, teatros, cantinas, tudo em ruinas. Ruínas que não são pesarosas, não são agoniantes: são melancólicas. Sou melancólico, agora, enquanto o sol vai nascendo aos poucos através dos furos do estore. Passeio por tudo isto, de mãos nos bolsos e com o casaco fechado até acima. Está frio aqui. Não está vento, nada se mexe, mas está frio. O frio do desconforto, o frio do cansaço, do desalento. Vejo a vida que já passou por estes corredores, por estas ruas, e fico triste. Não é um triste sôfrego, muito menos desesperante. É um triste de desconsolo. Vejo tudo isto e não consigo deixar de sentir um ralo a vazar parte do interior que me dá forma. Não sei o que chamar a isto, nem sei se consigo descrever muito bem, mas talvez seja o mesmo que se sente quando vemos uma fotografia antiga, com alguém que hoje já não é, e bate-nos de frente a saudade pegajosa daquela altura específica, daquela pessoa que agora é só aquilo que seguramos na mão: uma fotografia antiga. Guardo-te ai. Numa polaroid amarelada com o rebordo branco mascarrado com dedadas de chocolate. Um sorriso feliz e uns olhos que o confirmam. Emoldurado e colocado com amor na lareira que agora já só tem brasas em cuidado paliativo. 

À noite, volto para casa. Nas mãos o volante, nos ouvidos a música, na cara o fresco que vem da janela e em todo o lado saudade de ti. À noite, principalmente. Quando o sol se esconde puxa do outro lado do mundo uma sensação qualquer de vazio espumoso. Leve, mas denso. Lembro-me de ti, pergunto-me se tu também, imagino o que fazes, adivinho o que sentes. Dono e senhor de coisa nenhuma, para além desta neblina pegajosa que cai quando recordo, vagueio pelo escuro, só com as luzes da estrada a iluminar o caminho que se desdobra. Dantes a noite sabia bem, agora já nem tanto. 

Queria estar contigo agora. Ver-te. Ouvir a tua voz. Qualquer coisa… Será que quero mesmo?
Estou a esquecer-te aos bocados: como quando se deixa um vício quotidiano, procuro tapar-te dos meus sentidos com risos tontos, guitarras aos berros ou passeios solarengos. Talvez seja por isso que à noite custa mais… Quando tudo esfrega os olhos e vai dormir, só eu é que ainda fico desperto. Vou vomitando para aqui coisas que moldo para serem bonitas mas que na verdade são tudo menos isso. Quer dizer, mais ou menos… há qualquer coisa de atraente na melancolia. Mas regra geral, não, não é bonito estar assim. Ficamos mais carrancudos, os braços pingam do tronco, as costas curvam-se para a frente, os olhos ficam mais fechados. Até a voz fica mais grossa, menos genuína. Faz parte. É a vida. Teve de ser.
Outra vez. Filho da puta do escuro que não me deixa em paz. 

De novo a noite trouxe-te para me assombrar, para gozar com a minha cara. Sabe que sinto a tua falta e que por causa disso, o que menos quero é sequer respirar o mesmo ar que tu, mas mesmo assim continua a fazer isto. Passo todo o dia a tentar esvair tudo de ti que ainda de mim não saiu. Ignoro as fotografias, distraio-me com o quotidiano, invento malabarismos e números de circo para te chutar de mim para fora. Vou conseguindo…  menos à noite. À noite o coração encolhe e tudo fica mais aguçado, mais pontiagudo.
 Hoje vi uma fotografia e um armazém de cristaleiras cheias de porcelana, cristal e vidro explodiu, pegou fogo e depois voou num tornado. Congelei, só por uns segundos. Meu deus, que segundos. Como reflexo apressei-me a esconder tudo, a desligar tudo, mas já ia tarde. Afetaste-me. Ainda me afetas. Não posso nem muito menos consigo negar. É normal, acho. Por muito que me quis tentar convencer que não duraria mais que um sopro a voltar ao normal, a voltar a como tudo estava antes de saber o teu nome, estava redondamente enganado. Está a custar.

Questiono-me se pensas nisto, se o sol e o mar não te cegam o coração que, acho, ainda é capaz de saber a cor dos meus olhos, o cheiro do meu cabelo. Pensas na decisão que tomaste? Pensas em como estarei a lidar com isto? Pensas no bolo de chocolate que comemos à frente da cidade inteira? Pensas no sol que encheu a minha varanda enquanto almoçávamos? Pensas na altura em que me disseste “Não custa assim tanto” e nos beijamos? Eu penso. Várias vezes. Neste preciso momento, sem parar. Um bocado irónico, isto. Não há dúvida que penso mesmo demais. Mas não o vou esconder, sou assim. Sei das arestas ainda rugosas e dos cantos mal definidos, mas tenho muito orgulho no que sou e por isso não tenho medo de dizer que sou assim. Mas não deixo de estar triste. Tenho de ir dormir.

A música toca. De corda em corda, as notas que a minha respiração alterada costumava fazer ganham sentido, ganham ordem, calma. Oiço a memória das tardes na tua casa, das manhãs na tua cama. Vejo tudo como se estivesse a minha frente: a parede com os postais pendurados, o Chico Buarque, a minha mochila ao lado da cama... No avião que agora me leva para casa, fecho os olhos e vejo a tua cara a namorar com as almofadas que seguraram o nosso sono. Vejo o teu cabelo emaranhado nos nossos sorrisos, nas gargalhadas. Vejo o passado. Só isso. Passado.

O tempo que passou desde a última vez que te vi foi amigo da saudade, do arrependimento. Lembrei me de ti, quis ligar te, quis ir ter contigo, pedir te para tentar outra vez. Quis a tua mão, quis o teu abraço e o teu calor também. Quis te, mais uma vez. Uma vez que quis que pudesse ser para sempre. Quis. Só isso. Pelo menos agora, que converso comigo mesmo nestas palavras, nestas lembranças.

Acho que já me passaste. A constipação que apanhei, na noite em que o teu vestido laranja perdeu cor quando me fui, já está a ir embora. Já respiro normalmente é sem nada entupido, já tenho mais energia e não espirro quase nada. A polaroid de há uns tempos atrás já está a ganhar po por entre a papelada que guardo na gaveta. Continuo a ver tudo, a sentir tudo, a cheirar tudo, mas as coisas ficaram mais baças, menos brilhantes. Aceitei o desfecho que emoldurou os dias que passamos e estou em paz. Existiram, esses dias, e isso por si só já quer dizer felicidade. Exististe, em mim, e isso faz me feliz. Espero que também estejas.
Ontem voltei a ouvir a tua voz. Tremi um bocadinho enquanto te procurava do outro lado da linha. Fumei um cigarro nervoso enquanto esperava perceber o que ia acontecer depois de te dizer "ola". Falamos. Fiquei contente. Depois peguei na mochila e sai de casa: já não havia pão e era melhor ir já comprar porque mais tarde a padaria fechava.