Uma mão firme, jovem, prende com força o rumo do final da tarde. Uns pés vestidos de cabedal, atado para não deixar que o vento o leve, dançam suspensos sobre o chão que se desdobra. Um tronco, curvado e já meio dorido, vê os seus contornos abraçados pelo tecido da camisa que esvoaça no fundo das costas. Uma boca, uns olhos, um nariz espelham o coração. Um coração. Do qual não importa saber nada agora. Do qual se solta o orvalho que o frio da rotina costuma trazer.
No cenário que corre à minha volta vou balançando, meio atabalhoado, o meu peso para que nada disto que me envolve pare num trambolhão. Para não cair, para que estes minutos não travem de repente, não derrapem na minha inexperiência.
Neste processo quase mecânico, onde passos são trocados por tiras pretas que deslizam no chão, consigo encontrar um sorriso diferente, uma gargalhada nova, um ar fora do vulgar. Consigo sentir a magia daquilo que me rodeia. O encanto de uma rua mal alcatroada, o tilintar tosco da correia mal oleada.
Rasgando a avenida que desagua do rio, por pouco, não ganho penas e levanto voo. Quem me dera poder fechar os olhos e deixar o vento e a cidade abraçar o calor que enche agora o meu coração. O calor dos dias onde não tenho nada que me pese na alma. O calor do sol que me protege nos dias em que os ponteiros giram por alguém.
Ultrapasso o tédio, não paro por nenhum sinal que me tente travar. Desfaço curvas com a convicção de quem se guia pelo que o enche. Subo passeios, piso lombas e escondo-me dos carris.
Pelo caminho vejo as coisas mais bonitas que a cidade guarda, invejosa: o mar que se desenrola em céu; a cor dos azulejos que guardam o retrato de tudo o que seja santinho, paisagem ou amor-perfeito; a luz que invade cada frincha que risca o betão, a pedra, o vidro: ilumina o interior dos meus olhos e encandeia o tempo parado que enche o meu corpo.
Com o branco do mármore a competir com o branco que me cobre a pele vou abrandando: Já cheguei à praça onde o tem de ser me espera. Ainda em movimento, solto os pés que se libertam do seu ofício e aproveito os últimos metros de liberdade. Vejo um poste, deixo-me escorrer até o ter preso no meu punho dorido. Pés no chão. Num alçar de perna deixo para trás a bicicleta que pelo peito me puxa para fora.
Do bolso tiro uma chave pequenina. Teço um novelo de metal entre aquela máquina de tempos bons e o ferro frio da realidade que regressa. Tranco com firmeza o cadeado que levava na mochila.
Pé ante pé vou deixando infiltrar-se na paisagem a minha bicicleta preta que me trouxe até aqui. Que consegue arrancar a tristeza da cidade numa só passagem veloz.
Paro de repente: uma dúvida. Volto para trás, em passo acelerado. Com ela de novo à minha frente puxo pelo cadeado. Está mesmo fechado.
Retomo o meu caminho de peito leve: és demasiado importante para que alguém te possa tirar de mim.
Diogo Lopes
